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Universidades Públicas: Conheça pesquisas que mudaram o país

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Pesquisas de universidades públicas transformam a ciência, dia após dia 

Com o recente anúncio do contingenciamento da verba para as universidades públicas, que vai influenciar diretamente o campo de pesquisa, e com a declaração do presidente Jair Bolsonaro dizendo que são poucas as universidades no Brasil que fazem, de fato, pesquisa, viemos explicar que isso essa informação está incorreta. E claro, vamos mostrar que muitas descobertas vieram, sim, das universidades públicas do nosso país.

Universidades Públicas: Contingenciamento de verba pode afetar pesquisas científicas
Foto: Felipe Iruatã / Zimel Press / Agência O Globo

Universidades Públicas: Conheça pesquisas que mudaram o país

Segundo informações da Folha de S. Paulo, o Brasil está entre os 15 países com a maior quantidade de estudos científicos publicados no mundo. Os cientistas brasileiros lançaram cerca de 200 novos artigos acadêmicos diariamente em 2017 e a maioria desses trabalhos são de universidades públicas.

As universidades públicas USP, Unesp e Unicamp produzem, sozinhas, um terço da ciência feita nas 198 universidades do país. Outras federais, como UFRJ, UFMG E UFRGS também integram essa lista, lembrando que nenhuma delas é da rede privada de educação. 

Segundo o portal Investe São Paulo, as principais áreas de pesquisa no Brasil são: agronomia, ciência de plantas e animais, farmacologia e toxicologia, microbiologia, meio-ambiente/ecologia, ciências sociais, medicina clínica, biologia e bioquímica, neurociências e imunologia, segundo dados da Thomson Reuters compilados pelo professor Osvaldo Oliveira Jr. do Instituto de Física da USP de São Carlos.

Todas as informações sobre pesquisa científica no Brasil estão disponíveis no Ranking Universitário Folha (RUF), desde 2012. Segundo Sabine Righetti, pesquisadora-docente da Unicamp e coordenadora acadêmica e membro do conselho consultivo do RUF, por meio desse conteúdo, é possível perceber que os docentes e pesquisadores da Unicamp são os mais produtivos do Brasil. Já os trabalhos dos professores da USP são os mais mencionados e a UFABC é a universidade brasileira com mais pesquisas inseridas internacionalmente.

Comparando com as universidades particulares, a maioria das 93 que existem no país produzem pouca ciência, exceto as instituições moderadas em pesquisa, como as PUCs Rio, Rio Grande do Sul e Paraná.

Segundo Estêvão Gamba, doutor em ciências pela Unifesp e estatístico responsável pelo RUF, dados de rankings como o RUF podem auxiliar o desenho de políticas públicas. Um exemplo é o governo chinês, que com base no ranking universitário do país e em outras informações cruzadas, dá um aporte de recursos públicos extras para nove universidades chinesas “de excelência”. No Brasil, porém, não há iniciativas nesse sentido.

Um ponto importante que vale a pena destacar é que, o contingenciamento de verba não vai afetar itens como salários e aposentadorias dos funcionários das universidades públicas, que são obrigatórios por lei. Por isso, a redução será feita nas despesas de custeio e investimento, que ficam cada vez menores.

Se você descontinua o recurso, você compromete uma pesquisa que vem sendo feita há décadas e que você não pode retomar nunca mais”, explica Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em entrevista ao HuffPost Brasil.

Se você não mantiver o equipamento, ele se deteriora e acabou. Pesquisas que acompanharam ao longo de anos a evolução de epidemias, por exemplo, podem ser interrompidas abruptamente”, explica Ildeu

Para entendermos a importância da pesquisa acadêmica no Brasil feita por universidades públicas, vamos listar algumas. Confira:

 

Mayaro – UFRJ

Os pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) anunciaram, no dia 16 de maio, a descoberta do vírus mayaro, no Estado do Rio.

O Mayaro é um “primo” da chikungunya e provoca as mesmas reações nos pacientes: febres e intensas dores musculares e articulares que podem se prolongar por muitos meses.

Mas os pesquisadores acreditavam que o vírus existia apenas em áreas silvestres da Amazônia, semelhante ao que transmite a febre amarela, segundo informações do jornal O Globo.

Porém, a presença do Mayaro não surpreendeu os cientistas da UFRJ, pois há quase quatro anos, eles já alertavam sobre a possibilidade da existência do vírus nas terras cariocas, por meio de uma adaptação ao ambiente urbano.

 

Pele de Tilápia – UFC/ IFCE

A Universidade Federal do Ceará e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) usaram a pele de tilápia no tratamento de queimados. O material adere às feridas e a bloqueia do meio externo, ao mesmo tempo, impede a perda de líquido. Uma das grandes vantagens é a redução da dor sentida com a constante troca dos curativos.

Os médicos do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) também constataram redução do tempo de cicatrização das lesões.

De acordo com a própria universidade, a técnica já foi usada por dezenas de pacientes vítimas de queimaduras e recentemente, foi aplicada em um procedimento inédito no mundo, quando ajudou em uma cirurgia de reconstrução vaginal após mudança de sexo.Universidades Públicas: Contingenciamento de verba pode afetar pesquisas científicas

 

Cinzas de carvão usados em pavimentação e construção civil – UFC

As cinzas de carvão mineral produzidas por usinas termelétricas cearenses ganharam nova finalidade após pesquisa realizada pelo Laboratório de Mecânica dos Pavimentos da Universidade Federal do Ceará (LMP-UFC).

O produto, que polui o ambiente, agora é utilizado no setor de pavimentação e construção civil, sendo usado também em construção de paredes, massa do meio-fio e calçamento.

De acordo com a UFC, a pesquisa trouxe novas perspectivas para o resíduo, que antes se acumulava em toneladas e eram misturados com aditivos químicos em módulos para o depósito de insumo.

Com essa nova finalidade, as cinzas de carvão passam a ser comercializadas e os impactos ambientais são reduzidos.

Universidades Públicas: Contingenciamento de verba pode afetar pesquisas científicas
Prof. Jorge Soares mostra o resultado da pesquisa com cinzas do carvão mineral (Foto: Ribamar Neto)

Caminho promissor para a cura do Alzheimer – UFRJ

Os cientistas da UFRJ abriram caminhos para uma possível cura do Alzheimer. O ponto de partida é o exercício físico, mais precisamente a natação. De acordo com a pesquisa, a ginástica, feita uma hora por dia, cinco vezes na semana, melhora o desempenho dos camundongos (cobaias) no teste de memória.

Segundo o portal G1, o normal é que os camundongos fiquem curiosos e se aproximem dos objetos que estão vendo pela primeira vez. Se escolhem para brincar com as peças que já tiveram contato antes, é porque não são capazes de memorizar e assim não aprendem.

Segundo os cientistas, as cobaias possuem Alzheimer e foi notado que após cinco semanas de treino na piscina, os efeitos nocivos da doença praticamente desapareceram.

Segundo a UFRJ, o responsável pela mudança de comportamento é um hormônio descoberto há seis anos: a irisina. Ela é produzida nos músculos, com o estímulo da atividade física e cai na corrente sanguínea. Os cientistas já conheciam o efeito dela para reduzir as reservas de gordura. Esse novo estudo mostra o poder da irisina quando ela chega no cérebro.

O estudo foi publicado em janeiro de 2019 na revista “Nature medicine” e foi desenvolvido por 20 pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e cinco estrangeiros.

 

Sensor para diagnóstico da doença de Alzheimer – UFSCar

Ainda falando em Alzheimer, os departamentos de Química e Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram um sensor que se baseia nos níveis de uma proteína do sangue para diferenciar idosos saudáveis, doentes e com predisposição ao Alzheimer.

De acordo com o jornal O Globo, atualmente, a maioria dos diagnósticos são feitos com base em exames clínicos, uma espécie de teste de perguntas e respostas que identifica sintomas no paciente. Os métodos laboratoriais são invasivos, como a coleta de um líquido presente no cérebro, através da espinha dorsal, ou são caros, como a tomografia computadorizada, que custa de R$ 400 a R$ 800. Para se ter ideia, o sensor poderia ser utilizado em uma coleta de sangue em postos de saúde e clínicas, com custo em torno de R$ 3.

A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Mas ainda aguardam parcerias e empresas interessadas em fabricar o dispositivo para a comercialização.Universidades Públicas: Contingenciamento de verba pode afetar pesquisas científicas

 

Cicatrização do Pé diabético – Universidade de Brasília

A Universidade de Brasília desenvolveu um aparelho que é uma possibilidade para tratar o “pé diabético”, complicação frequente em pessoas com diabetes mellitus. O projeto Rapha, que em hebraico significa curar, associa o uso do látex (biomaterial com propriedades cicatrizantes) a um equipamento emissor de luzes de led, cujo princípio de ação é a fototerapia.

A responsável pelo projeto é Suélia Rodrigues Fleury Rosa, professora de Engenharia Eletrônica da Universidade de Brasília e pós-doutora em Engenharia Biomédica pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT/EUA).

O pé diabético é responsável por 70% das amputações de membros inferiores no Brasil. O modelo de tratamento aguarda apenas a liberação da Anvisa para entrar no Sistema Único de Saúde (SUS), mas ele começou a ser testado em 2013, na Universidade de Brasília.

De acordo com Mário Fabrício Fleury Rosa, do Programa de Pós-doutorado em Ciências e Tecnologias em Saúde da UnB, o equipamento vai ajudar a reduzir drasticamente o número de amputações feitas no SUS, que, atualmente são cerca de 50 mil por ano.

Outro diferencial do projeto, segundo Suélia Fleury, é diminuir a ida do paciente ao hospital, já que parte do tratamento ele passa a fazer em casa. A coordenadora do projeto explica que o paciente precisa ao hospital para cuidar da lesão e isso dificulta o tratamento, além de que pode expor a ferida a ambientes propícios à contaminação.

Rapha recebeu R$ 2 milhões do Ministério da Saúde para seu desenvolvimento, mas foi todo organizado dentro da universidade, afirma os responsáveis por ele.

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Lâmina de látex e equipamento móvel, componentes do Kit Rapha. Foto: Beatriz Ferraz/Secom UnB

Software para detectar pornografia infantil – UFMG

O perito criminal da Polícia Federal, João Macedo, cursa um programa de mestrado de Ciência da Computação na Universidade Federal de Minas Gerais. Ele e seu orientador, Jefersson Alex dos Santos, trabalham desde 2017, em um software para auxiliar a identificação de vídeos que contenham nudez ou atos sexuais envolvendo crianças e adolescentes nos diversos computadores apreendidos por ano.

Jefersson conta que o método utilizado pelo software explora um conjunto de técnicas chamada “aprendizagem de máquina”, pelo qual a máquina realmente aprende o que é pornografia a partir de exemplos mostrados a ela.

De acordo com Jefersson, quando a máquina vê um vídeo novo, consegue dizer se aquilo é pornografia ou não, o que agiliza o processo e protege o perito exposto por muito tempo a este tipo de conteúdo.

Além de identificar o conteúdo em 0,06 segundos, o software detecta as faces presentes na cena, para estimar a idade delas. O processo completo demora cerca de 0,4 segundos e já registra quase 80% de acerto. O método é inovador, mesmo porque os pesquisadores no Brasil têm dificuldade de acessar esse tipo de informação.

O orientador do projeto disse que o trabalho deu certo, pois João tem acesso a um banco de dados enorme, que não pode sair da Polícia Federal, e todos os manuseios são feitos lá dentro.

 

Carro Autônomo Inteligente – UFES

O professor Alberto Ferreira de Souza, PHD em Ciência da Computação e professor titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), desafiou seu grupo de pesquisa a colocar uma câmera em um carro e o automóvel dirigir sozinho.

O professor diz que a ideia começou em 2009, quando o grupo de pesquisa que ele coordena começou a estudar como a visão funciona, como o cérebro dá capacidade de ver.  Ele explica que após isso, eles tentaram fazer o computador aprender as capacidades humanas para dirigir o carro.

O projeto teve bastante investimento público, federal e estadual. Dessa forma, eles conseguiram comprar um carro híbrido, que funciona por combustível ou energia elétrica. Em 2017, o Automóvel Robótico Autônomo Inteligente realizou uma viagem de 74 quilômetros, da UFES até a cidade de Guarapari, de forma autônoma, com um responsável monitorando o computador e um motorista humano de segurança para intervenções necessárias. Assim, o automóvel se tornou o 8º carro autônomo do mundo e o primeiro brasileiro a realizar uma viagem passando por várias cidades.

O professor conta que nos próximos 10 anos, o investimento em carros autônomos será de 7 trilhões de dólares, por isso, o Brasil precisa se destacar e não ser um mero consumidor, e sim um produtor dessa tecnologia.Universidades Públicas: Contingenciamento de verba pode afetar pesquisas científicas

 

Sorvete para pacientes em quimioterapia – HU/UFSC

Pesquisadores do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU/UFSC) desenvolveram um sorvete capaz de agir como complemento alimentar e anestesiante sensorial. Os responsáveis pela pesquisa constataram que o tratamento quimioterápico interfere no consumo alimentar, influenciando o estado nutricional do paciente, o qual pode emagrecer muito nesse período.

De acordo com a professora do departamento de nutrição, Raquel Kuerten de Salles, as pesquisas mostram que esses pacientes sentem dores ao ingerir alimento e possuem dificuldade na formação da saliva. Raquel conta que como o alimento gelado diminui a dor, eles optaram por transformar o sorvete em um alimento enriquecido, aliando a figura convidativa da sobremesa a nutrientes.

Para fazer o sorvete, não há a adição de aditivos nem gordura hidrogenada. Muito pelo contrário, o alimento é rico em proteína de alto valor biológico, fibras e não tem lactose, já que muitos pacientes desenvolvem intolerância durante o tratamento. A segunda etapa da receita do sorvete foi chegar a um paladar, aroma e visual adequados. Para isso, eles fizeram uma parceria com uma marca de sorvete catarinense.

A professora conta que quando o sorvete foi testado, teve mais de 75% de aceitação e a equipe percebeu que era um produto interessante.

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A paciente Carolina Martins consome o sorvete diariamente há seis meses. Foto: Dani Lottermann

Prêmio para a Universidade Federal Fluminense – UFF

Um estudo realizado por professores, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Portsmouth University (Inglaterra) recebeu, em 2016, um prêmio, de melhor artigo científico, o Provasoli Award, concedido pela Sociedade Americana de Ficologia (Phycological Society of America).

A pesquisa destaca aspectos da importância evolutiva da produção e compartimentalização de substâncias que podem auxiliar algas e plantas a armazenar e secretar substâncias que atuam na mediação das interações com competidores, organismos incrustantes e herbívoros.

 

 

 

Lembrando que, esses são apenas alguns projeto de algumas universidades públicas do Brasil. Se você souber de mais algum projeto, compartilhe com a gente.

 

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Por: Ana Clara Turchetti