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O carnaval que Bolsonaro tenta esconder

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Entre a fofoca envolvendo Neymar, Bruna Marquezine e Anitta, entre versos dos funks da Gaiola, entre fotos e publicações sobre as fantasias mais engraçadas, estava o hit do carnaval 2019: “Ei, Bolsonaro, vai tomar no c*!”.

A frase circulou por diversos blocos de várias regiões do Brasil durante os dias de carnaval e estava na ponta da língua daqueles que não são favoráveis a Jair Bolsonaro, presidente do país.CARNAVAL - Bolsonaro não mostra a realidade do carnaval do Brasil

O carnaval que Bolsonaro tenta esconder

O presidente do Brasil costuma usar sua conta no Twitter como um meio de comunicação, mas foi na terça-feira de carnaval, dia 5, que todo mundo não entendeu nada.

Em um post em sua rede social, Jair Bolsonaro publicou um vídeo no qual dois homens aparecem em atos obscenos diante de diversas pessoas, em um bloco. O vídeo mostra um homem urinando na cabeça de outro, prática sexual conhecida como “golden shower”. 

Segundo o jornal Folha de São Paulo, o vídeo foi gravado na segunda-feira, 04, em um bloco chamado Blocu, no centro de São Paulo. O presidente afirma que o ato praticado no vídeo está se tornando corriqueiro no carnaval do Brasil.

CARNAVAL - Bolsonaro publicou um vídeo polêmico sobre a festa brasileira
Assista ao vídeo no perfil de Jair Bolsonaro

Já na quarta-feira, 06, Bolsonaro levou para rede social uma pergunta: CARNAVAL - Bolsonaro perguntou em seu Twitter o que é Golden Shower

As publicações ainda estão disponíveis no perfil do presidente.

 

O que disse a mídia internacional?

The New York Times

O jornal americano The New York Times disse que a proposta do presidente era criticar o carnaval e que “muitos conservadores da maior nação latino-americana detestam” as festividades da época, vistas por eles como “pagãs”.

O jornal ainda conta com a opinião do senador Humberto Costa, que chamou o presidente de patético, e da cientista política Mara Telles, que sugeriu que o presidente teria quebrado o decoro do cargo.CARNAVAL - Jornal The New York Times publicou matéria sobre Bolsonaro e vídeo polêmico

 

Daily Mail

O jornal britânico Daily Mail escreveu na legenda da foto de Bolsonaro: “Bizarro: Presidente Jair Bolsonaro twittou um vídeo mostrando um homem urinando em outro, alegando que isso “expõe a verdade” do carnaval brasileiro”.

O jornal acrescenta que em 2019, a festa de carnaval incluiu protestos e zombarias ao líder de extrema direita do país. Além disso, o jornal ainda postou a foto dos famosos bonecos de Olinda, na forma de Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, a primeira-dama.

CARNAVAL - Daily Mail publicou matéria sobre Bolsonaro e vídeo polêmico
“Bizarro: Presidente Jair Bolsonaro twittou um vídeo mostrando um homem urinando em outro, alegando que isso “expõe a verdade” do carnaval brasileiro”

CARNAVAL - Daily Mail publicou matéria sobre Bolsonaro e vídeo polêmico ,citando os bonecões de Olinda

 

The Independent

O também britânico The Independent disse que os brasileiros foram rápidos em condenar a postagem de Bolsonaro como uma má representação do festival e que alguns usuários do Twitter disseram ter denunciado o conteúdo por ser inadequado.

O jornal conta que críticos acusam Bolsonaro de usar o vídeo como uma forma de resposta a protestos que surgiram no carnaval, em que muitos participantes se vestiram para zombar de um escândalo de lavagem de dinheiro envolvendo o presidente.

A publicação do The Independent ainda conta com a postagem da apresentadora Astrid Fontenelle, em resposta a Bolsonaro: “Passei um carnaval inteiro vendo tantas coisas bonitas. Então me deparei com isso no Twitter do presidente da república“, escreveu a apresentadora.

CARNAVAL - Jornal The Independent publicou matéria sobre Bolsonaro e vídeo polêmico
Perfil no Twitter do jornal britânico fez uma chamada para a matéria no site

E Hamilton Mourão? 

Hamilton Mourão, do PRTB, evitou comentar sobre a polêmica em torno de Bolsonaro e a postagem do vídeo. Segundo a Veja, ele disse: “Sem comentários. “Não vou comentar o que eu não sei. Não sou ventríloquo do presidente”, disse.

Pressionado por jornalistas, Mourão minimizou o impacto da publicação e negou que o ato possa interferir na tramitação de propostas importantes no Congresso, como a reforma da Previdência. “Isso morre amanhã. Está morto amanhã. Tudo passa”, disse Mourão.

 

Os bonecos de Olinda

Segundo o governo de Pernambuco, o primeiro boneco chegou às ruas da cidade de Belém do São Francisco, no carnaval de 1919, com o surgimento do personagem Zé Pereira. Somente em 1932 os bonecos ganharam as ladeiras de Olinda, com o personagem Homem da Meia Noite.

Mas no carnaval de 2019, duas participações não agradaram o público presente em Olinda enquanto desfilavam. Jair Bolsonaro e sua esposa, Michelle Bolsonaro foram alvo de uma chuva de vaias, latas de cerveja e refrigerante e até pedras de gelo.

De acordo com o Estadão, as pessoas ficaram exaltadas e foi necessário a intervenção da Polícia Militar para dar apoio aos seguranças particulares contratados pelos organizadores do bloco.CARNAVAL - Jair e Michelle Bolsonaro como bonecões de Olinda

 

Mas como é o carnaval do Brasil?

O carnaval é a festa mais popular do Brasil e possui tanta importância que é comum ouvir a frase: “O ano só começa depois do carnaval”. Mas a forma de aproveitar a festa está mudando. Além das fantasias inspiradas em personagens, como de filmes e séries, hoje notamos os blocos cheios de personagens inspirados na política.

CARNAVAL - Foliões investiram em fantasias que criticam a política do Brasil
Pessoas usam fantasias criticando cenário político do Brasil

Começando com o hit do carnaval, que não foi marcado por uma música em si, mas um grito da população: “Ei, Bolsonaro, vai tomar no c*”. Segundo o El País, a Polícia Militar de Minas Gerais advertiu o tradicional bloco Tchanzinho Zona Norte para não criticar o presidente do Brasil.

O capitão Lisandro Sodré, do 13 Batalhão de Belo Horizonte afirmou à imprensa que “trios e blocos não podem incitar manifestações políticas” no carnaval da cidade. O que aconteceu? Não foi ouvido e assim começou o grito da festa que se espalhou na capital mineira e em outras cidades do país, virando também a hashtag mais popular do Twitter no domingo.

A Ursal não foi esquecida e no Rio Grande do Sul, São Paulo e Olinda tiveram blocos fazendo homenagem a essa fake news. Não só nos blocos, mas o protesto também chegou no Sambódromo, em forma de alegoria e enredo.

 

Escolas de Samba fazendo história

A escola campeã do carnaval do Rio de Janeiro 2019 foi a Estação Primeira de Mangueira, que teve como enredo “História pra Ninar Gente Grande”. A Mangueira recontou a história do Brasil através de heróis da resistência negra e indígena, como Dandara dos Palmares e Luísa Mahin, guerreiras negras que lutaram pela libertação dos escravos.

Para o carnavalesco Leandro Vieira, esse carnaval foi de representatividade. “Esses homens e essas mulheres aqui são os heróis do meu enredo, que merecem sempre ser exaltados. Aqui mora o que tem de melhor nesse país. E o que tem de melhor nesse país faz essa festa que o mundo todo aplaude“, diz.

Além disso, ele disse que é um recado político para todo o país. “É um recado político também para o presidente mostrar que o carnaval é isso aqui. O carnaval é a festa do povo, cultura popular, e não o que ele acha que é”, conta Leandro.CARNAVAL - Mangueira foi a grande campeã do carnaval do Rio de Janeiro

A Mangueira contou com um carro fazendo uma releitura do Monumento às Bandeiras, em São Paulo. A obra apareceu manchada de sangue, fazendo referência à forma violenta com a qual os bandeirantes exploravam o Brasil.

A comissão de frente da escola desconstruiu a imagem de figuras históricas como Princesa Isabel, Pedro Álvares Cabral, o Marechal Deodoro da Fonseca, Dom Pedro I e o bandeirante Domingos Jorge Velho.

O samba enredo citou Marielle Franco, vereadora do PSOL morta a tiros em março de 2018, crime que ainda não foi solucionado. A arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle, e o deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL, desfilaram na última ala da escola.

Além disso, a Mangueira deu outro tom a bandeira do Brasil e homenageou diversas personalidades brasileiras com seus rostos estampando bandeiras.

CARNAVAL - Mangueira foi a grande campeã do carnaval do Rio de Janeiro
Bandeira do Brasil nas cores da Estação Primeira de Mangueira. Escola também trocou a frase “Ordem e Progresso” por “Índios, Negros e Pobres”.

Além da Mangueira, a escola de samba Unidos da Vila Isabel e o Bloco carioca “Se Benze que dá”, criado em 2005 que desfila anualmente no complexo da Maré, também homenagearam Marielle.

 

Destaque também para Paraíso do Tuiuti 

A Mangueira repetiu a ousadia da escola de Samba Paraíso da Tuiuti, vice-campeã em 2018 com o enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está extinta a Escravidão?“. Na época, a escola surpreendeu o público com um samba de protesto contra o racismo e as sequelas da escravidão, que são sentidas até hoje pela população negra do país.

A escola ainda levou para a avenida o Vampirão, fazendo uma sátira ao ex-presidente Michel Temer. A escola fez uma crítica a reforma trabalhista mostrando o ex-presidente na fantasia intitulada “presidente vampiro do neoliberalismo”.

O carnavalesco da Paraíso da Tuiuti, Jack Vasconcelos, em entrevista ao portal UOL, disse que muitas pessoas levaram para o lado pessoal a forma como ele retratou as questões políticas em 2018. “Foi punk. Sofri ameaça em rede social, teve gente descobrindo meu telefone. Mantive minhas redes sociais bloqueadas por muito tempo. Hoje acalmou“, disse.

CARNAVAL - Paraíso do Tuiuti já abordaram questões políticas
Desfile da escola Paraíso do Tuiuti em 2018
CARNAVAL - Paraíso do Tuiuti já abordaram questões políticas
Desfile da escola Paraíso do Tuiuti em 2018

Já em 2019, a Paraíso da Tuiuti levou para avenida o enredo “O salvador da pátria”, que contou a história do Bode Ioiô, eleito vereador em Fortaleza, nos anos 1920. A escola relacionou o Bode ao cenário político atual.

Uma ala mostrou a luta entre “o bode da resistência e a coxinha ultraconservadora”. Os bodes estavam vestidos de vermelho, lembrando a cor usada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e de esquerda. Já as coxinhas seguravam uma arma, fazendo referência aos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

No último carro da escola, o bode, simbolizando a resistência, deu um coice no tanque de guerra, representando os militares no poder. Além de resistência, o bode fez o papel do retirante, do boêmio e do folião.

CARNAVAL - Paraíso do Tuiuti abordou novamente e mais forte questões políticasCARNAVAL - Paraíso do Tuiuti abordou novamente e mais forte questões políticas

Se no Rio de Janeiro tem, em São Paulo pode também

Assim como Mangueira e Paraíso da Tuiuti abordaram questões sociais e políticas, a Vai-Vai, escola de samba de São Paulo, também abordou temas parecidos.

O enredo da maior campeã do carnaval paulistano foi: “O quilombo do futuro”. A escola falou sobre a luta do negro na sociedade e fez uma homenagem à Marielle Franco.

A escola fundada em 1930, no bairro Bixiga, foi rebaixada para o Grupo de Acesso do carnaval de São Paulo, com 268,8 pontos, junto com a Acadêmicos do Tucuruvi. CARNAVAL - Vai-Vai homenageou vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio de Janieiro

CARNAVAL - Vai-Vai homenageou vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio de Janieiro

O carnaval que representa

Segundo afirma o historiador Luiz Antonio Simas, um dos pesquisadores mais respeitados do carnaval brasileiro, com 16 livros sobre a cultura popular, em entrevista a Carta Capital, que o Carnaval é “resistência” que transcende a bagunça e avança para além do feriado“.

Perguntado sobre a questão do carnaval e resistência, o motivo da multidão não permanecer nas ruas e fazer uma revolução, ele explica que a população utiliza essa data pois há espaço. “O carnaval talvez seja esse momento de ebulição, porque é a hora em que essas frestas estão abertas. Mas, depois dele, isso continua, sim, sendo exercitado, seja nas rodas se samba nas esquinas, nos bailes funk do subúrbio, nas rodas de rap, na cultura da periferia que se expande. Quando falo do Carnaval como uma festa de resistência, não é exatamente uma resistência direta, explícita“, explica o historiador.

Na entrevista feita antes do início do carnaval, o historiador apostou que os blocos de rua poderiam fazer protestos políticos. “O governo que está ai é um alvo fácil, porque afronta o próprio espírito carnavalesco. É um prato feito para o Carnaval cair em cima na base da galhofa“, disse.

Simas ainda diz que de todos os presidentes da história da República, incluindo os militares, Bolsonaro é o que possui uma postura mais anticarnavalesca. “Não tem nada ali que passa nem perto da força do Carnaval, da espontaneidade do Carnaval de rua, da maneira como a festa lida com o corpo. Ele é o anticarnaval por excelência. O próprio túmulo do Carnaval“, explica Luiz Antonio Simas.

 

O bolso também agradece

Sabemos que nem tudo são flores, principalmente no período de carnaval, em que há diversos fatores para entendermos porque muitas pessoas preferem simplesmente descansar nessa época. Mas como essa é a festa mais popular do Brasil, os números para economia são ótimos.

Segundo levantamento da Prefeitura de Belo Horizonte, a ocupação na cidade foi de 75%, com pessoas do Espírito Santo, Bahia, Rio de Janeiro, Brasília e até do exterior.

Segundo Paulo César Marcondes Pedrosa, presidente da Federação de Hotéis Restaurantes Bares e similares de Minas Gerais, o carnaval da capital mineira passou a ser um dos maiores eventos turísticos do Brasil.

A economista Rita Mundim afirmou que a previsão da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) é de que a festa em Belo Horizonte tenha movimentado cerca de R$ 620 milhões de reais, ficando atrás de Rio de Janeiro e São Paulo, e na frente de destinos tradicionais, como Bahia e Pernambuco.

 

Por: Ana Clara Turchetti