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MARIELLE FRANCO: O crime está solucionado?

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Um crime com mil e umas suposições

Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes, seu motorista, foram assassinados no dia 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro. Um crime com muita repercussão, que chocou não só o Brasil, mas diversos países. Dois suspeitos presos pelos assassinatos.

Mas o crime está solucionado?

Marielle Franco - O crime está solucionado?
Foto: Brenda Marques

MARIELLE FRANCO: O crime está solucionado?

 

Foi um ano de homenagens, de memórias de Marielle Presente. O nome da vereadora marcou presença no samba enredo da escola campeã do Carnaval no Rio de Janeiro, a Estação Primeira de Mangueira.

“Salve os caboclos de julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez

De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”Marielle Franco - Vereadora morta foi homenageada por Mangueira

Além de Marielle, a escola citou Dandara, que ao lado de Quilombo dos Palmares, defendeu o território de diversas tentativas de invasões e ajudou a constituir a organização social e econômica do quilombo.

Luíza Mahin era mãe do poeta e abolicionista Luís Gama, ex-escrava e teve papel fundamental nas revoltas dos negros que aconteceram na Bahia do século XIX.

Maria Felipa é conhecida na Bahia como a “Heroína Negra da Independência”. Teve participação fundamental em confrontos com portugueses durante a guerra da Independência da Bahia, como enfermeira e na liderança de um grupo de 40 mulheres que evitou um ataque de soldados portugueses.

Outra homenageada no samba enredo da Mangueira foi Leci Brandão. A sambista iniciou sua carreira na década de 1970, sendo uma das primeiras mulheres compositoras de samba no país, ao lado de outros nomes, como Dona Ivone Lara.

Além da carreira consolidada no samba, Leci está em seu terceiro mandato como deputada estadual por São Paulo, sendo a segunda deputada negra da história do estado.

Ao lado dessas outras mulheres, a vereadora do Rio de Janeiro se tornou um símbolo de resistência.

Além de ter sido homenageada pela Mangueira, o rosto de Marielle apareceu em outras escolas de samba, nos blocos de carnaval e nas manifestações no Dia Internacional da Mulher, 08 de março.Marielle Franco - Vereadora foi homenageada no dia Internacional da Mulher

 

Mas quem foi Marielle?

Marielle Franco, 38 anos, foi a quinta vereadora mais votada nas eleições de 2016, pelo PSOL. Nasceu e cresceu no Complexo da Maré, saiu do curso pré-vestibular comunitário para a graduação em Ciências Sociais, na PUC-Rio, onde ela e uma outra colega eram as únicas mulheres negras do departamento. Para fazer o curso, teve 100% de bolsa.

Quando sua colega foi atingida por uma bala perdida, Marielle percebeu que devia lutar pelas minorias e começou a trilhar sua carreira.

Completou o mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF), com o tema de dissertação: “UPP: a redução da favela a três letras”.

Marielle coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao lado do deputado Marcelo Freixo. A vereadora também foi presidente da Comissão da Mulher da Câmara.

Em seu mandato, Marielle denunciava os excessos cometidos contra os moradores de comunidades.

Foi mãe aos 19 anos, era assumidamente bissexual e defendia os direitos da população LGBT, levantava bandeiras do feminismo, da luta pela igualdade racial e dos direitos humanos.Marielle Franco - Um ano após o assassinato de Marielle

 

Quem era Anderson?

Anderson Pedro Gomes de 39 anos, também foi assassinado. Ele dirigia o carro em que Marielle Franco estava.

Anderson estava registado como motorista da Uber, mas no momento do assassinato, ele não prestava serviço ao aplicativo de transporte.

Agatha Arnaus Reis, esposa de Anderson, disse em entrevista à Rádio Gaúcha, ainda em 2018, que durante a campanha eleitoral para a Câmara, o marido começou a trabalhar como motorista de outra candidata, mas que, devido a um acidente com um colega que prestava serviço a Marielle, ele tinha ido trabalhar com a vereadora. 

Segundo Agatha, Anderson nunca relatou algum tipo de ameaça, mas tinha medo, devido a violência no estado.  

Marielle Franco - O motorista do carro Anderson Pedro Gomes também foi assassinado
O motorista Anderson Pedro Gomes e Família

Quem é Fernanda Chaves?

Pouco falada na mídia, Fernanda Chaves também estava no carro com Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes.

Fernanda Chaves é jornalista e trabalhava como assessora de Marielle. Ela sobreviveu ao ataque, sendo atingida apenas por estilhaços. Temendo mais alguma tentativa de assassinato, Fernanda foi incluída pela Anistia Internacional em um serviço de proteção para pessoas em situação de risco.

Após o assassinato da vereadora e do motorista, Fernanda concedeu uma entrevista ao Fantástico, mas sem revelar o rosto. Após um tempo, a jornalista se mudou para a Europa, vivendo na Espanha e Itália.

Mas em março de 2019 ela retornou ao Brasil, porém vamos falar sobre isso mais para frente.

Marielle Franco - Ex-assessora de Marielle retorna ao Brasil e dá entrevista ao Fantástico
Fernanda Chaves em entrevista ao Fantástico

Acompanhe a linha do tempo e entenda como andam as investigações

 

16 de fevereiro de 2018

O então presidente Michel Temer assinou um decreto que determinava a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, deixando a segurança pública sob responsabilidade de um interventor militar, que responde ao presidente da República.

A intervenção prometia diminuir os índices de criminalidade, recuperar a capacidade operativa das polícias, articular os diversos órgãos da segurança pública, fortalecer o caráter técnico, e não político desses órgãos e melhorar a gestão do sistema prisional, com reestruturação.

O fim da intervenção foi comemorado no dia 27 de dezembro de 2018, sendo finalizado no dia 31 do mesmo mês. De acordo com o G1, o número de roubos diminuiu, mas a quantidade de mortes em ações policiais cresceu.

Marielle Franco - Vereadora foi assassinada enquanto o Rio de Janeiro estava em Intervenção Federal
Intervenção Federal no Rio de Janeiro em 2018. Foto: REUTERS/Pilar Olivares

10 de março de 2018

O dia 10 de março foi escolhido por Marielle para criticar a atuação dos policiais do 41º Batalhão do Acari. A publicação do post foi feita pela página no Facebook do Coletivo Fala Akari e compartilhada por Marielle.

SÁBADO DE TERROR EM ACARI Na manhã de Hoje, sábado (10/03) policiais entraram na favela de Acari, por volta das 6 da…

Posted by Coletivo Fala Akari on Saturday, March 10, 2018

 

Ao compartilhar o conteúdo, Marielle escreveu:

Marielle Franco - Publicação na rede social da vereadora
Para a mesma publicação, Marielle fez duas postagens denunciando o que estava acontecendo em Acari.

 

Dia 13 de Março de 2018

Marielle volta a criticar a polícia após um jovem ser morto. “Mais um que pode estar entrando para a conta de homicídios da polícia. Quantos jovens precisarão morrer para que essa guerra aos pobres acabe?Marielle Franco - vereadora denuncia mortes feitas pela polícia

 

Dia 14 de março, mais cedo

A última publicação de Marielle foi no dia 14. A vereadora estava em uma roda de conversa ‘Mulheres Negras Movendo Estruturas”, na Rua dos Inválidos, na Lapa.

A publicação transmitiu ao vivo o bate-papo com mulheres negras e o trabalho que cada uma desempenha na sociedade.

Marielle não sabia, mas aquela seria sua última noite. O próximo post na conta do Facebook da vereadora já seria uma nota oficial do PSOL, anunciando a morte de Marielle.

Marielle Franco - Vereadora participou de encontro com ativistas negras antes de ser assassinada
Marielle e ativistas negras participam de conversa na Casa das Pretas. Encontro foi transmitido ao vivo pela internet. Foto: Reprodução

 

Dia 14 de março, mais tarde

A roda de conversa acabou e Marielle saiu do local. Dentro do Agile branco estavam Marielle, Anderson e Fernanda.

Por volta de 21h30, na rua Joaquim Palhares, no Estácio, região central do Rio, um carro emparelhou com o da vereadora e os disparos começaram. Os tiros foram feitos de trás para frente, no sentido do banco traseiro à direita, onde a vereadora estava sentada, até o banco do motorista.

Marielle Franco foi atingida por quatros tiros na região da cabeça e pescoço. Anderson foi alvo de três disparos nas costas. Fernanda, a assessora de Marielle, ficou ferida pelos estilhaços.

O veículo utilizado no crime tinha a placa clonada. A Polícia Civil afirmou que não foram levados pertences e que os atiradores teriam disparado e fugido em seguida. Além disso, o fato de Marielle estar no banco traseiro do carro, que tinha vidros escuros, aumentaram as possibilidades de que o grupo acompanhou a vereadora por um tempo, sabendo sua exata posição no carro.

A assessora de Marielle foi encaminhada para a delegacia para prestar depoimentos, mas na época sua identidade não foi revelada.

Marielle Franco - Vereadora e motorista foram mortos dentro de carro
Carro onde estava Marielle Franco, Fernanda Chaves e Anderson Gomes.

16 de março de 2018

Dois dias após o assassinato, a perícia concluiu qual arma foi usada no crime. Uma submetralhadora alemã HKMP5 de calibre 9 milímetros, usada por forças especiais da polícia. A munição pertencia a um lote comprado pela Polícia Federal de Brasília, em 2006. Algumas balas desse lote foram extraviadas.

As mesmas balas foram usadas em chacinas em Barueri e Osasco (que matou 19 pessoas), em 2015, e em São Gonçalo, no Rio de Janeiro entre 2015 e 2017.

A Polícia Civil acreditava na hipótese de que a execução de Marielle e Anderson estaria ligada a milicianos da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Antes de ser vereadora, Marielle Franco assessorou o deputado Marcelo Freixo (PSOL) na Comissão de Direitos Humanos da Alerj e trabalhou com ele na CPI das milícias, que indiciou 200 pessoas.

 

18 de março de 2018

Começam as fake news envolvendo Marielle. O Movimento Brasil Livre (MBL) e o deputado da bancada da bala, Alberto Fraga (DEM), difamaram Marielle dizendo que ela estava envolvida com bandidos.  

O deputado Alberto Fraga disse “Conheçam o novo mito da esquerda, Marielle Franco, Engravidou aos 16 anos, ex-esposa do Marcinho VP, usuária de maconha, defensora de facção rival e eleita pelo Comando Vermelho, exonerou recentemente seis funcionários, mas quem a matou foi a PM”, escreveu o deputado.

A desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio, Marília Castro Neves, também espalhou fake news sobre Marielle. Ela escreveu em um post em rede social.

Marielle Franco - Marília de Castro Neves espalha notícias falsas a respeito de Marielle

 

08 de maio de 2018

Uma testemunha conversou com a polícia sobre um plano para matar a vereadora. Essa pessoa deu novas informações, que chegaram ao vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM e miliciano Orlando de Curicica.

A pessoa integrava uma milícia na Zona Oeste do Rio e teria sido aliada de Orlando. Ela contou que presenciou uma conversa entre Siciliano e Orlando, na qual os dois pensaram na morte de Marielle.

Ainda segundo a testemunha, a motivação para o crime seria a disputa por áreas de interesse na região de domínio de Orlando. “Ela peitava o miliciano e o vereador. O miliciano e Marielle chegaram a travar uma briga por meio de associações de moradores da Cidade de Deus e da Vila Sapê. Ela tinha bastante personalidade. Peitava mesmo”, disse a testemunha.

Orlando e Siciliano negaram participação na morte da vereadora.

 

18 de maio de 2018

Em uma matéria publicada pelo jornal El País destaca que, segundo pessoas ouvidas pelo meio, seja pouco provável que a execução de Marielle tenha sido motivada por conflitos na Câmara dos Vereadores. O mais provável, segundo os especialistas, é que o crime tenha sido planejado por milicianos que desejavam vingança, já que Marielle foi assessora de Marcelo Freixo durante a CPI das Milícias, em 2008.

Segundo o Fantástico, foram investigados na época, os deputados estaduais do MDB, Edson Albertassi, Jorge Picciani e Paulo Melo. Eles eram inimigos de Freixo pois o deputado liderou uma ação para impedir a posso de Albertassi como conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, que seria uma forma do trio escapar da investigação do braço da operação Lava Jato no Estado. Todos negaram envolvimento com o crime.

Há também a hipótese de que tenha sido uma tentativa, por parte das organizações criminosas, de tentar desestabilizar a intervenção federal que estava acontecendo no Rio. Segundo a revista Veja, há pressuposições de que políticos importantes estariam envolvidos, inclusive de fora da Câmara dos Vereadores do Rio.

 

10 de junho de 2018

O então ministro da Segurança Pública Raul Jungmann afirmou que as investigações a respeito do assassinato da vereadora estava chegando em sua etapa final.  

 

24 de julho de 2018

A Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu dois homens suspeitos de integrarem a milícia de Orlando Oliveira de Araújo, o Curicica, e apontado por uma testemunha de ter ordenado, junto com o vereador Marcello Siciliano, a morte de Marielle.

O policial militar reformado Alan Nogueira, conhecido como Cachorro Louco, e o ex-bombeiro Luís Cláudio Barbosa foram presos, mas por terem participado de homicídios de um PM e um ex-PM, na Baixada Fluminense em 2017. Eles serviriam como uma pista para a solução do caso Marielle.

 

20 de agosto de 2018

A Polícia Civil investiga a formação de um grupo de matadores de elite. Segundo “O Globo”, o chamado “Escritório do Crime” é formado por policiais e ex-policiais, entre eles um major da ativa e um ex-oficial do Bope. O Ministério Público acredita que Adriano Magalhães da Nóbrega é o homem-forte do escritório. O grupo é altamente especializado em execuções por encomenda, sem deixar pistas.

Um integrante do grupo passou por um interrogatório e deu algumas pistas, o que fez com que a Polícia construísse a ligação. Segundo “O Globo”, o integrante negou que estava no bairro Estácio (onde Marielle foi executada) no dia do crime, mas dados de antenas de celulares, cruzados com um aparelho usado pelo suspeito, indicaram que ele estava no local no dia e hora do assassinato.

 

14 de dezembro de 2018

A polícia do Rio de Janeiro descobriu que milicianos planejavam matar o deputado estadual Marcelo Freixo.

Marielle Franco - vereadora e Marcelo Freixo eram próximos e já tinham trabalhado juntos
Marcelo Freixo e Marielle Franco

12 de janeiro de 2019

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, em entrevista coletiva, afirma que a morte de Marielle e Anderson pode estar próxima de ser solucionada. “O caso Marielle está próximo sim de uma solução, não tenho atribuição legal para olhar os autos do processo que estão sob sigilo. Só quem pode ter isso são os delegados lotados na delegacia. A informação que eu tenho é a que a solução do caso e a prisão dos envolvidos talvez aconteça até o final desse mês. Agora quem está envolvido, eu não sei”, disse ele.

 

22 de janeiro de 2019

Surge uma pequena e possível ligação entre o Escritório do Crime e o senador Flávio Bolsonaro. As mulheres Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega são, respectivamente, mãe e mulher do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, o Gordinho, considerado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma das lideranças do Escritório do Crime.

As mulheres foram lotadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, mas ele diz não ter sido responsável pelas nomeações.

Adriano é amigo de Fabrício Queiroz, investigado sob suspeita de recolher parte dos salários de funcionários de Flávio Bolsonaro. Segundo informações de “O Globo”, teria sido Queiroz, amigo também de Jair Bolsonaro desde os anos 1980, responsável pelas indicações dos familiares de Adriano.

 

21 de fevereiro de 2019

A Polícia Federal começou a apurar fraudes na investigação do caso Marielle. Desde então, passou a atuar para evitar que houvesse obstruções de grupos que atuavam contra a elucidação do caso.

10 de março de 2019

A assessora de Marielle Franco, Fernanda Chaves, retorna ao Brasil depois de três meses morando fora do país.

Em uma entrevista exclusiva ao Fantástico, ela disse que, pouco depois do crime, acreditava que corria perigo. “Eu achava que eu poderia levar um tiro, afinal de contas eu estava em um carro que foi metralhado no centro da cidade, às 21h, do lado da prefeitura, perto de uma câmera, na cidade que estava em uma intervenção federal militarizada. Fiquei com a sensação de que a qualquer momento eu poderia ser metralhada”, disse Fernanda.

Perguntada sobre o motivo da morte da vereadora, Fernanda disse que não ousa apostar em nenhuma das linhas. “O mandato dela estava muito mais focado em questões de gênero, de violência contra a mulher. Ela não tinha, por exemplo, as milícias como alvo, ela não teve um problema específico que pudesse ter culminado no assassinato dela. A Marielle incomodava principalmente os machistas, os racistas, tinham alguns vereadores que se incomodavam de ter uma mulher favelada, negra, lésbica, naquele espaço”, explica Fernanda.

 

12 de março de 2019

Foram presos na madrugada do dia 12 de março, em uma operação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil do RJ, dois suspeitos da morte de Marielle e Anderson.

Ronnie Lessa é policial militar reformado e Élcio Vieira de Queiroz foi expulso da Polícia Militar. Lessa teria sido o autor dos tiros e Élcio o condutor do carro. A polícia acredita que o crime tenha sido planejado nos três meses que antecederam as mortes.

Ronnie Lessa foi preso em casa, no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, zona oeste. O local é o mesmo em que o presidente Jair Bolsonaro tem casa. Segundo “O Globo”, não há ligação entre os suspeitos e o presidente.

O jornal ainda destaca que Lessa entrou na lista de suspeitos após ser vítima de uma emboscada, em abril de 2018. A suspeita seria que pessoas envolvidas no crime teriam tentado fazer uma “queima de arquivo”.

Marielle Franco - Dois ex-policiais são presos acusados de participarem da morte da vereadora
Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz

Também no dia 12 de março, a Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro encontrou 117 fuzis incompletos, na casa de um amigo de Ronnie Lessa, Alexandre Mota de Souza. A polícia chegou nele rastreando um barco que seria de Ronnie, mas estaria no nome do amigo.

As armas, todas novas, estavam desmontadas em caixas, só faltavam os canos. O dono da casa afirmou para a polícia que Ronnie, seu amigo de infância, entregou as caixas e pediu para guardá-las e não abri-las. Alexandre foi preso por suspeita de tráfico de armas.

O delegado Marcos Amin, titular da Delegacia Especializada Armas e Explosivos do Rio – Desarme, em entrevista ao G1, disse que algumas armas apreendidas são falsas, mas funcionam normalmente.

Marielle Franco - Polícia encontra 117 fuzis em casa
Foto: Divulgação

Segundo o secretário de Polícia Civil, Marcos Vinícius Braga, esta é a maior apreensão de fuzis da história do Rio.

 

14 de março de 2019

Segundo o portal UOL, a Polícia Federal suspeita de que o “Escritório do Crime” possua infiltrados dentro da Delegacia de Homicídios, conforme depoimentos de dois delatores ouvidos pela Procuradoria Geral da República.

O delator das informações foi o ex-PM Orlando de Araújo, o Curicica. Ele disse em depoimento que integrantes do Escritório pagavam uma mesada a alguns policias da Delegacia de Homicídios para que investigações sobre as execuções praticadas pelo grupo não chegassem aos responsáveis pelos crimes.

Além de Curicica, há um outro delator, que sofreu a uma tocaia do grupo de matadores de aluguel, afirmou que há infiltrados entre os agentes que atuam na delegacia.

Além das mortes de Anderson e Marielle, o “Escritório do Crime” também é suspeito no homicídio do empresário Marcelo Diotti da Mata, morto a tiros na mesma noite em que a vereadora e o motorista foram assassinados. Marcelo era marido da ex-mulher de Cristiano Girão, recém-saído do sistema penal, que era acusado de chefiar a milícia da Gardência Azul. Com a prisão dele, Lessa teria assumido o controle da comunidade.

Além desse, há também suspeita de envolvimento com a morte de dois herdeiros de clãs da máfia do jogo do bicho: Hayton Escafura e Myro Garcia, assassinados em 2017.

Hayton estava com a namorada, a soldado da PM Francine de Souza, em uma suíte no nono andar do Hotel Transamérica, na Barra da Tijuca, quando foram surpreendidos por dois matadores. Os homens usavam roupas parecidas com o uniforme da Polícia Civil. O casal foi morto com dezenas de tiros de fuzil e pistola.

No caso de Myro Garcia, ele foi morto a tiros de fuzil na saída de uma academia em Jacarepaguá. A Delegacia de Homicídios diz ter concluído que a morte de Myro aconteceu devido a um sequestro, uma testemunha afirma que o mandante do crime foi a máfia contrária a família de Myro. Tanto a morte de Hayton, como a de Myro não foram solucionadas.

 

O que se sabe sobre Ronnie Lessa

Ronnie Lessa entrou na Polícia Militar do Rio de Janeiro em 1992. Atuou na Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (unidade extinta), na Delegacia de Repressão a Roubo de Cargas e na Divisão de Capturas da Polinter Sul.

Em 1998, Lessa então terceiro-sargento da Polícia Militar, foi homenageado na Assembleia Legislativa do Rio. A homenagem foi feita a pedido do ex-deputado Pedro Fernandes Filho, avô do também ex-parlamentar Pedro Fernandes Neto (PDT), que atualmente é secretário de Educação do governador Wilson Witzel (PSC).

Em 2009, o PM reformado foi vítima de um atentado, quando uma bomba explodiu dentro do carro blindado que dirigia. Ele perdeu uma perna no ataque e desde então usa uma prótese.

A primeira pista sobre o suspeito foi uma possível queima de arquivo em abril do ano passado, quando ele e um amigo bombeiro foram baleados no Quebra-Mar, na Barra da Tijuca.

Um homem em uma moto teria abordado o carro onde viajavam, mas os dois reagiram e balearam o criminoso, que fugiu, mas atirou em Lessa. Ele foi levado ao Hospital Lourenço Jorge, mas deixou a unidade sem prestar esclarecimentos.

Ronnie era considerado “ficha limpa” e conhecido pela eficiência no gatilho e frieza na ação. Para o assassinato da vereadora, Ronnie Lessa acompanhou a agenda de Marielle, sabendo onde ela estaria todos os dias.

O Ministério Público acredita que Ronnie Lessa tenha matado Marielle por repulsa às causas que Marielle lutava, mas não descarta que o crime tenha sido encomendado.

Segundo informações da Folha de São Paulo, a defesa de Lessa nega o envolvimento dele com o assassinato.

No dia 15 de março (2019) o Controle de Atividades Financeiras (Coaf) informou que foi feito um depósito de R$ 100 mil em dinheiro, na conta de Ronnie Lessa. O depósito foi feito na boca do caixa, no dia 09 de outubro de 2018, sete meses depois do crime. O advogado do suspeito afirmou desconhecer o depósito e disse que ainda vai conversar com o cliente sobre o tema.

O Ministério Público cita, também no pedido, a lancha apreendida em Angra dos Reis, em nome de uma pessoa que seria “laranja” de Lessa, os automóveis do policial reformado (um deles avaliado em R$ 150 mil), e a casa dele, localizada em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca.

Todos esses bens, segundo o MP, seria incompatível com a renda de um policial militar reformado.

 

O que se sabe sobre Élcio Vieira de Queiroz

Élcio Vieira de Queiroz foi expulso da corporação em 2016, após investigações da Polícia Federal, em 2011, na Operação Guilhotina, que investigava o envolvimento de policiais com o tráfico de drogas e as milícias.

Élcio foi um dos denunciados pelo Ministério Público do Rio pelos crimes de formação de quadrilha armada, comércio ilegal de arma de fogo, extorsão e outros delitos.

Acusado de participar do assassinato de Marielle e Anderson, Élcio foi preso em casa, no Engenho de Dentro, zona norte do Rio. Após o anuncio da prisão do suspeito, apareceu na internet uma foto de Élcio e Jair Bolsonaro, tirada em 2011, antes da expulsão do suspeito.

Segundo informações da Folha de São Paulo, a defesa de Élcio nega o envolvimento dele com o assassinato. 

 

E agora?

Mesmo com a hipótese de que Ronnie Lessa tenha assassinado Marielle por não concordar com os pontos defendidos por ela, o Ministério Público ainda não descartou um mandante para o crime e qual a motivação.

A polícia deixou claro, em uma coletiva feita na terça-feira (12), dia da prisão dos suspeitos, que não tem as respostas de quem e porque Marielle foi morta, pois serão objeto da segunda fase das investigações.

Segundo o jornal “O Globo”, a Delegacia de Homicídios também está investigando a morte de Lucas do Prado Nascimento da Silva, conhecido como Todynho. Ele teria sido o responsável pelas alterações feitas no documento do veículo utilizado pelos assassinos.

Em 3 de abril, pouco menos de um mês do assassinato de Anderson e Marielle, quando já tentava identificar onde estava o Cobalt e quem teria sido responsável pela clonagem do veículo, Todynho foi morto. Segundo “O Globo”, ele teria sido executado quando fazia a entrega de outro carro também clonado. De acordo com a polícia, ele sofreu uma emboscada na Avenida Brasil, na altura de Bangu.

Esse crime também teria ligação com a morte do líder comunitário Carlos Alexandre Pereira Maria, o Alexandre Cabeça. Ele foi morto com vários tiros, cinco dias após o assassinato de Lucas. Alexandre Cabeça era colaborador informal do vereador Marcelo Siciliano, mencionado no inquérito que apura a morte de Marielle.

No dia 04 de abril de 2019, segundo informações do portal UOL, a Polícia Federal encontrou provas de que houve atos de corrupção praticados por membros da Delegacia de Homicídios que impediram o esclarecimento de autoria de assassinatos que envolvem milicianos do Escritório do Crime e integrantes da máfia do jogo do bicho no Rio de Janeiro.

A informação do portal foi confirmada por duas fontes ligadas ao inquérito da Polícia Federal. A reportagem apurou que ao menos dois delegados estariam na folha de pagamento do Escritório do Crime e que a propina era paga na própria sede da Delegacia de Homicídios.

Por: Ana Clara Turchetti