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Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

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Rio de Janeiro, década de 1950, mais precisamente 1959. Malu, Adélia, Lígia e Thereza se esbarram em meio a problemas, diferenças e sonhos. Essas quatro mulheres são protagonistas da série “Coisa Mais Linda”, original Netflix.Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

Para contextualizar: Tudo começa quando a paulista Maria Luíza, ou Malu, chega no Rio de Janeiro para encontrar seu marido, Pedro, que está esperando pela esposa. Após horas no aeroporto e sem notícias de Pedro, Malu resolve ir até o endereço do apartamento em que o casal iria morar.

Eles deixaram a grande São Paulo para montar um restaurante na então capital do Brasil. Mas Pedro sumiu e levou com ele todo o dinheiro de Malu. Restaram roupas, fotos e um bilhete com marca de batom. Malu coloca fogo em tudo e a partir daí a história começa.

Por acaso do destino, ou do fogo, ela conhece Adélia, uma mulher negra que trabalha como doméstica. Amiga de infância de Ligia, Malu conhece Thereza, cunhada de Lígia. Nesse momento já sabemos que grandes coisas vão surgir.

Agora imagina tudo isso sempre com um toque de bossa nova ao fundo, a fotografia amarelada para remeter a década de 50 e o figurino encantador. Homens sempre de terno, elegantes. Mulheres com roupas que marcam a cintura, faixas e tiaras no cabelo, boinas, lenços e óculos gatinho. Quer mais o que?

Mas a moda e a bossa nova passam longe de ser o espetáculo principal da série. Ao contrário do que eu mesma imaginei, eles não investigam a origem de um dos ritmos mais tradicionais do Brasil. Parece que ele surge naturalmente, nos bares, nas praias e nos violões dos cariocas. O ponto principal ali é a mulher. As diferentes mulheres que conhecemos, cada uma com a sua especificidade.

Malu, a paulista recém-chegada no Rio, decide montar um clube de música e conta com a ajuda das suas amigas. Com essa nova casa de show, vamos identificando os problemas sociais que há na década de 50 e, por incrível que pareça, ainda é comum nos dias de hoje.

Para te convencer a assistir e descobrir um Rio de Janeiro um tanto quanto encantador, confere os motivos que fazem “Coisa Mais Linda” ir muito além do simples e tradicional.

 

As personagens

Elenco tão bem escolhido, parece que cada atriz nasceu para interpretar sua personagem. Maria Luíza é vivida por Maria Casadevall, uma mulher rica, que faz da tristeza seu grande sonho. Longe do filho, ela descobre ser mais forte do que imagina e mesmo sem nunca ter trabalhado na vida, ela consegue montar, adaptar, negociar e ter sucesso em seu clube de música.

Fernanda Vasconcellos é Lígia, a tradicional mulher da década de 50. Casada e submissa ao marido político, vive dos sonhos dele, que quer muito ter filhos. Ela ama cantar, mas o marido não permite, por não ser coisa de “mulher casada”.

Adélia é Pathy Dejesus. Negra, mãe solteira, moradora da favela, empregada doméstica, que só pode usar o elevador de serviço. Se ele estiver em manutenção, ela é obrigada a subir nove andares de escada com carrinho de compras lotado na mão.

Mel Lisboa é Thereza, jornalista de uma revista feminina, independente, morou em Paris por muitos anos e trouxe para o Rio de Janeiro o “pra frentex” que há na série. Ela é casada, mas possui um relacionamento aberto, se relacionando também com mulheres.Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

 

Semelhança com os dias de hoje

Não sei como, mas acreditei que os tapas na cara da sociedade seriam mais agressivos. Errei. Uma dica: perceba a sutileza das palavras, dos gestos, as atitudes, até os pedidos de desculpas.

A forma como sempre se referem a Adélia como sendo a empregada doméstica, babá e até a proibindo de usar o elevador social. A forma como falam e como Adélia reage é tudo muito delicado, mas por isso mesmo incomoda tanto. E o pior: o racismo é tão enraizado na sociedade da época que até mesmo as pessoas do círculo de Adélia conseguem colocá-la sempre como inferior. 

Maria Luíza tenta vários empréstimos para começar a criação do clube de música e ouve diversos “nãos”. Mas todos acompanhados de um terrível problema: ser mulher. Ela ainda escuta que não vai conseguir administrar o comércio e vai ser um grande fracasso. Nem o próprio pai de Malu acredita na capacidade da filha.

O mesmo acontece com Thereza que, mesmo trabalhando em uma revista feminina, trabalha cercada por homens que escrevem como mulheres. Ouviu que não era capaz, que mulher só servia para enfeitar a redação e o que ela escrevia não era o que as leitoras queriam ler, mesmo sendo.

Percebeu a delicadeza que falei de Lígia no tópico acima? Pois é, dessa mesma forma é construída a relação da personagem com o marido. Ele faz Lígia ser submissa. Mesmo ela tendo apanhado do marido, ela acredita que está errada, que fez por merecer, que precisa se comportar para o fato não se repetir e ainda pede desculpas. Como marido é político, Lígia precisa estar sempre impecável, leia-se: aparência, humor, comportamento e fala perfeitos, se não, tudo é motivo para criticá-la e diminuí-la.

Alguma semelhança com os dias de hoje? Mesmo de forma discreta, percebemos as críticas feitas às mulheres, como se elas só servissem para embelezar o ambiente e ser um adorno para o marido rico, o que era uma meta de vida para a maioria das famílias: ver a filha se casando com um homem rico e garantindo sua vida.

O antagonismo em “Coisa Mais Linda” não é o combo Homem + Problemas sociais. O grande vilão é o preconceito, a forma de se relacionar com a estrutura social da época que é pré-estabelecida. Violência doméstica, racismo e preconceito pelo simples fato de ser mulher.

Ah, e se você for um pouco chegado em política, pode perceber uma pitada de crítica também nesse ponto.

Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix
Elenco principal reunido

 

Amizade entre mulheres

Se você não conhece a palavra “sororidade” é melhor entendê-la bem. “Parceria e união entre mulheres, acabando com a ideia de que elas são rivais e precisam competir umas com as outras. É dar as mãos e enfrentar um mundo difícil e complicado juntas”, sororidade é isso e está presente em “Coisa Mais Linda”.

Quando Maria Luíza precisou, Adélia estendeu a mão. Quando Lígia precisou, Maria Luíza estendeu mão, abraço, casa. Mesmo contrariada pelo marido, a mãe de Malu não exitou em ajudar a filha em outro estado.

A amizade entre as quatro é tão forte que quando percebemos a forma como a sogra de Lígia a trata, já notamos que há algo errado ali.

É com essa amizade que todas conseguem dar um passo à frente na carreira e na vida pessoal.Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

 

Fotografia / Música

O que torna a série mais encantadora é a fotografia. A imagem aparece um pouco amarelada para representar justamente os anos 50/60, o que foi uma ótima escolha.

A música como pano de fundo é incrível. Um pouco de samba e muita bossa nova. O interessante é que mesmo falando de algo tão tradicional para o povo brasileiro, a série não cai em clichês. Não há citações a Tom Jobim ou Vinícius de Moraes, ou até mesmo em tocar “Garota de Ipanema”, que aparece na abertura, mas na versão de Amy Winehouse, de forma bem sutil, como toda a série.Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

 

Sonhos e vontades

Lígia sempre amou cantar, mas o marido não permitia. Como ela mesmo diz: “É mais forte que eu”. Malu foi contra a ideia de todos que falavam que o clube de música não daria certo.

As quatro mulheres vão conquistando uma liberdade que para a época, era fora dos padrões. Quando perceberam que suas vontades eram sempre deixadas de lado por causa de maridos e famílias, elas começaram a correr atrás do tempo perdido. E talvez essa seja uma das grandes lições dessa primeira temporada.

E sabe aquele incentivo para o empreendedorismo? “Coisa Mais Linda” tem.Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

 

Produção Brasileira

Acredito que a série tem “um quê” de novela brasileira, não sei se foi proposital ou se somente eu percebi. Mas a produção ficou leve, mesmo tendo uma história densa.

“Coisa Mais Linda” possui apenas uma temporada com sete episódios de, aproximadamente, 46 minutos. Fácil de assistir, te faz querer saber o que vai acontecer. E se você se der bem com a produção, vai devorá-la rapidinho.

A série foi produzida pela Netflix no Brasil e pensada para ser um produto de exportação, então, vamos valorizar as produções brasileiras.Coisa Mais Linda: Mil motivos para assistir a nova série brasileira da Netflix

 

The Marvelous Mrs. Maisel

A noite de abertura do clube de música não é do jeito que Malu esperava, por isso ela precisou improvisar. E deu certo.

Repare que quando Malu sobre ao palco, ela começa a fazer piadas sobre os infortúnios em sua vida, como o marido sumido e as críticas de que ela não iria conseguir. Exatamente nessa cena, notamos uma semelhança com uma outra série: “The Marvelous Mrs. Maisel”, que em português virou “Maravilhosa Sra. Maisel”, da Amazon Prime.

Dos criadores da série “Gilmore Girls”, Amy e Daniel Palladino, “The Marvelous Mrs. Maisel” se passa em 1958, em Nova Iorque. Miriam “Midge” Maisel é uma dona de casa, com um marido perfeito, dois filhos e um elegante apartamento num bairro nobre.

Mas a vida de Midge, chamada assim pelos mais próximos, sofre uma reviravolta quando o marido pede o divórcio. Ela acaba nos palcos, fazendo stand up, quebrando diversos padrões da época e lutando pela libertação das amarras que perseguem as mulheres.

 

Novidade

A Netflix anunciou dia 13 de maio, que a série vai sim ganhar uma segunda temporada. Os protagonistas do elenco original já foram confirmados e um elenco adicional será anunciado em breve.

Segundo a plataforma, vão ser seis novos episódios, com 50 minutos cada. A produção tem inicio previsto para o 2º semestre de 2019, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

 

Por: Ana Clara Turchetti