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ATAQUES A TIROS: a mudança na cobertura midiática dos recentes ataques no Brasil e no mundo

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Suzano, São Paulo, quarta-feira, 13 de março de 2019. Dois jovens entram armados na Escola Estadual Raul Brasil, deixando, ao todo, 10 mortos e 11 feridos. No mesmo dia, nomes, idades, Hobbies, redes sociais, fotos e outras mil informações sobre os atiradores aparecem a todo instante na mídia.

Christchurch, Nova Zelândia, sexta-feira, 15 de março de 2019. Um homem entra armado em duas mesquitas, deixando 50 mortos. O atirador transmite ao vivo por uma rede social o ataque e logo aparecem algumas informações sobre ele. Mas param.

Essa é a grande diferença entre a cobertura da mídia para os tiroteios. Em toda a história do Brasil, nove ataques a tiros foram feitos. Na Nova Zelândia, apenas dois ataques aconteceram, um em 2019 e um em 1990.

Essa conta fica mais extensa quando citamos os Estados Unidos, que desde o fim da década de 1960 até hoje, segundo o jornal The Washington Post, possui uma lista com 162 ataques a tiros, a maioria deles ocorridos a partir da década de 1990. Ao todo, foram 1.153 mortos em ataques a tiros nos EUA. 

ATAQUES A TIROS - Cerca de 162 ataques a tiros foram feitos nos EUA.
Você pode conferir o gráfico, na íntegra, pelo site do The Washington Post

ATAQUES A TIROS: a mudança na cobertura midiática dos recentes ataques no Brasil e no mundo

Sem notoriedade aos atiradores

Mesmo com apenas dois ataques a tiros, a Nova Zelândia, a partir da primeira-ministra, Jacinda Ardern, assumiu um posicionamento de não dar notoriedade ao atirador.

Em um discurso no Parlamento do país, no dia 19 de março, Jacinda Ardern, disse que nunca irá dizer o nome do atirador. “Ele buscou muitas coisas em seu ato de terror, entre elas a notoriedade – é por isso que você nunca me ouvirá mencionar seu nome“, disse Ardern.

A primeira-ministra ainda disse: “Eu imploro, fale os nomes daqueles que perdemos em vez do nome do homem que os levou. Ele é um terrorista. Ele é um criminoso. Ele é um extremista. Mas ele vai, quando eu falar, ser alguém sem nome“, disse a primeira-ministra.

De acordo com informações da CNN, a estratégia de Jacinda está dando certo: é o rosto dela e não do atirador que tem dominado a cobertura da mídia.

Esse posicionamento está bem claro nos Estados Unidos. O país vive uma epidemia desse tipo de crime, sendo que até ganhou uma categoria própria: “Mass shooting” ou “tiroteios em massa”, como afirma Tulio Kahn, especialista em segurança pública e criminologia.

Em um podcast publicado em seu Blog, Tulio diz que nos Estados Unidos, dependendo de como o crime é classificado, é contabilizado um ataque a tiros por dia. Segundo ele, o país classifica como Mass shooting um ataque a tiros com as seguintes características:

 

1 – Precisa ter quatro ou mais vítimas, excluindo os autores;

2 – Precisa ser em um local público;

3 – As vítimas precisam ser escolhidas aleatoriamente.

 

Como afirmou Kahn, após um ataque a tiros nos Estados Unidos, e não apenas lá, é muito comum observar um grande debate sobre armas e suas limitações. Essa discussão pode ampliar a procura por mais armas e também pode surgir o chamado “Efeito Contágio”, onde muitas vezes depois que um caso acontece, ele é muito divulgado e acaba estimulando a ocorrência de outros ataques.ATAQUES A TIROS - Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia

 

Experiência no assunto

Um dos atentados a tiros mais marcantes da história dos Estados Unidos é o da escola Columbine, realizado em 20 de abril de 1999. Planejado e executado por dois alunos, eles entraram na Columbine High School, em Denver, Colorado, e mataram 12 alunos e um professor.

Nesse caso, a mídia divulgou diversas informações sobre os atiradores, colocou seus nomes e rostos estampados em capas de revistas, jornais e eram exibidos no horário nobre da TV. Essa aparição excessiva fez com que se criasse uma espécie de culto aos atiradores. E podemos atribuir esse fato a mídia, que os ajudou a conseguir fama e notoriedade.

Em um artigo publicado no jornal digital Vox em março de 2018, a professora de Justiça Criminal da Universidade Estadual de Nova York, que há vários anos estuda massacres em escolas e universidades do país, Jaclyn Schildkraut, relatou um estudo feito pela ABC News que mostra a influência da exposição dos atiradores.

O artigo foi publicado logo após um massacre em uma escola na Flórida que deixou 17 mortos. Segundo a criminologista, cerca de 17 atiradores, entre 1999 e 2014 citaram em algum momento os atiradores de Columbine como inspiração para os ataques, assim como os atiradores de Suzano.

Segundo a professora, nos últimos 20 anos, a cobertura da mídia transformou os atiradores em heróis. “De muitas maneiras eles se tornaram mártires, deuses para outras pessoas que querem cometer atos semelhantes. Jovens que nem haviam nascido na época estão hoje cometendo massacres e citando os autores de Columbine”, explica.

Segundo a professora, a cobertura da mídia é centrada no atirador, em vez de focar nas vítimas ou nos heróis que responderam ao ataque. “Columbine foi o primeiro caso em que realmente houve ampla cobertura de um tiroteio. A rede CNN interrompeu a programação diária para cobrir o evento ao vivo“, conta Jaclyn.

ATAQUES A TIROS - Crianças brincam em memorial de vítimas em Columbine
No memorial para as vítimas de Columbine, lê-se a frase: “A parte mais difícil é ver que eram crianças matando crianças”

Campanha “No Notoriety”

Após um ataque a tiros em um cinema em Aurora, Colorado, em 2012, que matou 12 pessoas, os pais de uma vítima criaram a campanha “No Notoriety” ou “Sem Notoriedade”, em português. O objetivo da campanha era pedir que a mídia diminuísse o espaço aos autores de massacres.

Na campanha, os pais pediram que a imprensa seguisse alguns passos para poupar informações dos atiradores:

1 – Não coloque os nomes dos autores em manchetes;

2 – Não coloque fotos dos atiradores em destaque;

3 -Tente escrever os nomes somente quando necessário, uma vez por matéria, de preferênciaATAQUES A TIROS - Site No Notoriety pede que mídia não dê atenção aos atiradores

Até o hoje, o site da campanha ainda defende esses preceitos, afirmando que é preciso “privar indivíduos com mentalidade violenta dos holofotes que tanto desejam”.

Segundo a BBC, ainda nos Estados Unidos, existe a campanha “Don’t Name Them” (Não os Nomeie, em tradução livre), do Centro ALERRT da Universidade Estadual do Texas. Ela é semelhante a “No Notoriety”, afirmando que dar publicidade “permite ao atirador realizar um de seus objetivos e valida sua vida e suas ações.

Segundo Jaclyn Schildkraut, a proposta é totalmente coesa. “O que se propõe não é ignorar totalmente o autor, mas usar informações como seu nome ou imagem de forma muito limitada”, diz.

Ela ainda sugere, por exemplo, citar o nome do autor apenas uma vez, e nas próximas menções, referir-se apenas como “atirador”.

ATAQUES A TIROS - Local do ataque a tiros em Aurora, no Colorado
Local do tiroteio em Aurora, no estado americano do Colorado (Foto: AP/The Denver Post, Karl Gehring)

 

Autores antecipados

Cho Seung-Hui, um jovem sul-coreano de 23 anos, morador de Blacksburg, Virgínia, realizou, em 2007, o maior massacre a estudantes em uma universidade norte-americana. Cho Seung-Hui matou 33 pessoas e após o atentado, se suicidou. O caso ficou conhecido como o Massacre de Virginia Tech.

De acordo com o artigo “Morri para inspirar vocês”: uma análise das narrativas em disputa perpetradas por jovens homicidas/suicidas em ambientes escolares”, a autora e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Flora Daemon, diz que Cho Seung-Hui foi vítima de bullying e pensou no massacre motivado por desejo de vingança.

Segundo descreve Flora, Seung-Hui, após os primeiros homicídios, enviou pelo serviço postal à NBC News um pacote que continha o chamado “Manifesto Multimídia”, conforme nomeou a emissora. O pacote continha textos, autorretratos de Seung-Hui portando armas, além de vídeos que buscavam explicar o massacre que iria cometer.

No discurso feito pelo atirador, é possível identificar duas questões importantes: a invocação de ideia de herói e a dimensão do indivíduo mártir que se sacrifica em nome de outro (o atirador cita Jesus Cristo em seu discurso). Ele ainda deixa claro que deseja inspirar outras gerações.

Seung-Hui pensou que, enviando esse material a uma rede de comunicação, segundo Flora, ele completaria o crime e ainda deixaria o efeito de encorajamento.

O atirador também premeditou que, após cometer o crime, a probabilidade de veiculação do mesmo era grande, então ele facilitou, de certa forma, o trabalho jornalístico e a notícia do ataque circularia mais rápido.

Flora Daemon diz que Cho Seung-Hui conseguiu, com seu feito infame, viabilizar a inspiração de novos autores de massacres similares numa perspectiva evidentemente dialógica.

ATAQUES A TIROS - Homenagem às vítimas do ataque a Virgínia Tech
Estudantes da Universidade de Virginia Tech participam de cerimônia em homenagem às vítimas de ataque. (Foto: Getty Images)

Em um ataque a tiros na Escola Secundária de Jokela, na cidade de Tuusula, no sul da Finlândia, PekkaEric, de 18 anos e aluno da escola, matou seis alunos, uma enfermeira e a diretora da instituição.

O jovem, antes do ataque, imaginou que haveria uma tentativa de impedir informações sobre ele e sua ação. Foi então que, premeditadamente, ele produziu um “media pack”.

Nele continha uma composição musical de sua autoria, que teria a função de ser a trilha sonora para seus crimes, um texto que parecia simular um boletim de ocorrência policial, vídeos de prática de tiro, fotografias suas e da arma usada no crime, além de um texto que explicava as motivações para o ataque.

O atirador publicou esse conteúdo em um servidor de livre acesso na internet, sendo possível o acesso de outras pessoas, como jornalistas.

ATAQUES A TIROS - Escola Secundária de Jokela, na cidade de Tuusula
Foto: AP/Finland NBI

 

Brasileiro também foi influenciado

Além do caso de Virgínia e Jokela, a professora Flora Daemon também cita o caso ocorrido no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, em 2011. Ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, Wellington Menezes de Oliveira tinha 23 anos quando invadiu a instituição, matando 12 estudantes e logo após de suicidou.

O atirador também produziu conteúdos, mas ele não enviou a nenhum veículo nem publicou na internet. Simplesmente deixou o material em sua casa, pois ele já imaginava que a polícia iria encontrá-lo.

Como afirma Flora: “Wellington não precisava divulgar para garantir audiência a sua história e causa; ele sabia que estas eram suficientemente fortes para ‘exigirem’ do sistema − e aqui estamos nos referindo tanto à política de segurança pública quanto à política de comunicação − que elas fossem ao ar.”

Em um vídeo, o atirador se refere a outros dois jovens homicidas e suicidas que também escolheram escola como o local para o crime: Cho Seung-Hui, dos Estados Unidos, e Edmar Aparecido Alves, do interior de São Paulo, em 2003.

ATAQUES A TIROS - Homenagem aos 12 alunos mortos durante o ataque na escola em Realengo, no Rio
Homenagem aos 12 alunos mortos durante o ataque na escola em Realengo, no Rio (Foto: TÂNIA REGO/AG. BRASIL)

Ataque em Suzano

Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, atiraram em alunos de uma escola. Muitas pessoas compararam o ataque em Suzano com o de Columbine, e eles possuem semelhanças, como:

Ambos foram cometidos por dois atiradores, nos dois casos os autores se suicidaram, usaram armas brancas (em Columbine usaram vários tipos de facas e Suzano usaram machadinhas, besta e arco e flecha). Segundo a revista Veja, até as vestimentas dos atiradores de Suzano são semelhantes aos de Columbine. A ideia dos atiradores de Suzano era superar o número de vítimas de Columbine.

Na manhã do massacre em Suzano, Guilherme postou diversas imagens em sua conta no Facebook. Em algumas fotos ele aparece com uma máscara de caveira, em outras ele segura a arma e também faz o símbolo de arma com as mãos.

Provavelmente, o atirador já tirou as fotos pensando nessa repercussão, sendo que ele sabia que a mídia iria usar a sua imagem com a máscara de caveira para criar o assassino perfeito. O grande problema na repetição de fotos e nomes dos assassinos é transformá-los, de forma equivocada e sem perceber, nos heróis da situação.

No fórum que Guilherme participava na deep web (um segmento da internet que não pode ser encontrado por buscadores, favorecendo o surgimento de redes e sites anônimos), os outros integrantes, após o ataque, elogiaram o feito do atirador e os chamaram de heróis.

ATAQUES A TIROS - Escola Estadual Raul Brasil
Homenagens deixadas às vítimas do massacre de Suzano em frente à Escola Estadual Raul Brasil. (Foto: UESLEI MARCELINO / REUTERS)

O que pensam os jornalistas

A jornalista Cláudia Collucci, em um artigo escrito para a Folha de São Paulo, explica que para alguns estudiosos, essa medida não prejudicaria a disseminação de informações úteis.

Após dois tiroteios na Finlândia, em 2007 e outro em 2008, a mídia examinou o trabalho feito anteriormente e fizeram algumas mudanças. Segundo Cláudia, a imprensa divulgou os manifestos dos atiradores (que também se referiam aos autores de Columbine), mas não suas fotos e nomes.

Ainda segundo Cláudia, alguns jornalistas finlandeses protestaram, mas no fim prevaleceu uma política semelhante à proposta da campanha “No Notoriety”.

Em um artigo publicado pela jornalista Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa, no portal Observatório da Imprensa, ela afirma que muitas críticas foram feitas sobre os excessos cometidos pela imprensa ao noticiar o fato. “Como o jornalista da Band News que perseguiu a mãe de Guilherme Monteiro, um dos responsáveis pelo massacre em Suzano — são pertinentes, mas é preciso separar o que é espetacularização daquilo que é papel básico do jornalismo”, diz Sávia.

Ela diz que mesmo se a mídia não noticiar o fato, o WhatsApp está no caminho para informar com detalhes nítidos e, muitas vezes, distorcidos. Sávia diz que o que pode funcionar é um jornalismo que use ferramentas responsáveis em seu ofício, tendo o cuidado de não glorificar os assassinos.

Sávia afirma que é importante discutir o trabalho da imprensa em momentos de tragédia e dor para não repetir os erros do passado ou cometer novas falhas que prejudiquem os envolvidos direta ou indiretamente e a as sociedade que consome o conteúdo.ATAQUES A TIROS - Escola Estadual Raul Brasil

 

Por: Ana Clara Turchetti