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Dos palcos para as ruas das feiras, Caetano Brasil leva música para todos os públicos

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Se melhor amigo é o clarinete

Falar de música com paixão, muitos falam. Mas falar com conhecimento, dedicação, experiência (mesmo tendo pouca idade), isso é para poucos. O juiz-forano Caetano Brasil é uma dessas pessoas e nos encanta pela forma que conta sobre música, histórias e projetos. O mais recente foi o lançamento do single visual “Romani”, de Caetano Brasil & Grupo, que integra o projeto “Cartografias“.

Um single autoral, com produção independente que busca explorar o choro como linguagem e possibilidade de misturá-lo com gêneros da música folclórica e tradicional do mundo. “Romani” tem características extraídas de pesquisas sobre a música cigana, árabe e balcânica.

Caetano Brasil integra o quarteto “Caetano Brasil & Grupo“, com Guilherme Veroneze (piano), Adalberto Silva (baixo), Gladston Vieira (bateria), além de participar da banda de Emmerson Nogueira e fazer a direção musical do show de Clara Castro e tocar em sua banda. Entre um projeto e outro, ele oscila entre os palcos das casas de shows e as ruas das feiras de Juiz de Fora, levando música a quem estiver disposto a ouvir e se deixar contagiar.

Confira entrevista exclusiva com Caetano Brasil e se encante pela música do jovem artista:

 

Como começou sua paixão pela música?

Desde muito cedo eu tive um contato forte com as artes, apesar da minha família não ser uma família de músicos, sempre escutamos muita música em casa. Meus pais eram ligados ao teatro e artes plásticas e eu sempre tive interesse pelas artes. Minha mãe ouvia muita MPB e meu avô muita música clássica e eu tinha contato com isso de uma forma natural, até que eu quis começar a tocar algum instrumento.

Eu tinha uns 9 anos quando pedi para minha mãe um violão. Ela não pode me dar e me deu uma flauta doce, que foi meu primeiro instrumento. A partir disso, do contato do tocar e fazer música, essa paixão foi se mostrando muito forte, tomando conta da minha vida e do meu tempo. Fui me entregando a música, em um caminho sem volta.

Seu universo é a música instrumental. Como entrou nesse mundo?

Quando comecei a tocar flauta doce, eu fiquei sabendo de uma oficina de música, que era um trabalho social no bairro onde eu morava, no Borboleta. Fui atrás de uma vaga, fui apresentado ao coordenador da oficina, que é professor de violão do Pró-Musica. Ele mostrou um choro para gente e começou a levar partituras, discos, e foi como um vício, que não queria parar mais.

Montamos um grupo de choro com os alunos dessa oficina e eu descobri que a música instrumental era uma forma de me expressar de uma forma mais fiel, que ali estavam os códigos que me traduziriam melhor. Depois dessa oficina eu tive contato com o jazz, que complementou essa história.

Mais tarde, quando sai da oficina, por volta de 15 anos, eu comecei a me profissionalizar, frequentei o clube do choro aqui em Juiz de Fora, com músicos mais experientes que acabaram me abraçando e me inserindo no universo da música, profissionalmente falando.

 

Da feira aos shows em locais fechados. Como é a diferença de público, de sensações?

Eu parto do princípio que música é música. Não importa como você faz, com que você faz, que estilo você faz. Música é música, é para todo mundo e é pra dar um recado. Quando a gente faz música no lugar de artista, a gente faz porque quer dizer alguma coisa. Seja a música autoral, ou participando do trabalho de outras pessoas, somando a sua história a história de outra pessoa. Você está ali para dar um recado, para despertar sentimentos, sensações e reações. Na minha cabeça, a arte se baseia nisso.

Essa ideia de tocar na feira e nas casas, democratiza o acesso, pensando que música é para todo mundo. Na feira tenho apresentado o choro, que é um estilo de música popular, que nasceu na segunda metade do século XIX, da miscigenação brasileira, que é o melhor retrato dessa mistura, do nativo, do branco, do negro. E acho que promover essa conexão com as pessoas é muito importante, é a nossa forma de tentar uma reconexão com o nosso povo.

O bom de tocar em locais fechados é a estrutura que se tem, com sonorização e luz, que leva a música para o nível de espetáculo. O significado disso é o mesmo: é fazer música de verdade, com coração, e tocar o coração das pessoas. E isso pode ser na feira ou em uma casa de show. E muitas vezes, nem por todo o aparato, o show é melhor. Talvez, na feira as pessoas estão mais abertas a interação, troca e tudo flui lindamente e voltamos para casa realizado.

Caetano Brasil

 

Você é daqui de Juiz de Fora mesmo, né?! Você sente o retorno das pessoas em relação ao seu trabalho?

Sinto sim o retorno das pessoas. Em 2019 faço 9 anos de carreira, trabalhando com música e muita coisa mudou nesse tempo. Juiz de Fora tem uma produção artística muito intensa e a cidade abraçou minha música. O contato com os artistas sempre aconteceu de forma generosa e rapidamente eu comecei a frequentar ambientes variados. Saindo do choro, peguei o samba, o jazz e já gravei com a Mc Xuxu. Os artistas me dão esse retorno e o público que me acompanha sempre está comigo, sempre procura me acompanhar.

Juiz de Fora tem um certo “ranço”, pois as pessoas acham que o que é bom não pode ser daqui, então várias vezes as pessoas me elogiam e perguntam se sou de outra cidade, como Rio ou São Paulo. E isso é um comportamento geral que outros artistas também observam. Mas batalhamos muito para tirar essa ideia da cabeça das pessoas. Muita gente me pergunta quando vou sair daqui, por que não sai, e no meu caso, escolher ficar também é uma escolha importante. Eu viajo o Brasil inteiro, vou pra outros lugares e voltar para aqui é muito bom.

Ter minha base em Juiz de Fora, onde desenvolvo meu trabalho autoral com músicos que eu confio, onde eu posso assistir artistas que eu admiro da cena local, isso tudo é muito bom. Existe um retorno real em relação ao meu trabalho remando contra essa corrente que é um senso comum na cidade.

 

Como foi a produção de “Romani”?

“Romani” é um single visual, que já está disponível nas plataformas digitais, com clipe no YouTube. O processo foi relativamente rápido e fácil. É a coisa do artista independente que foi feito com recursos próprios, sem nenhum tipo de incentivo ou patrocínio. Com o objetivo de dar ao público que me segue um material, uma novidade, muito nessa urgência de artística de falar “Estou em um processo de um novo repertório, lancei meu primeiro disco em 2015, e estava na hora de mais coisas”.

Então gravamos em um cenário lindo, que é o Estúdio Versão Acústica, do Emmerson Nogueira, lá em São João Nepomuceno, e com uma equipe técnica dos sonhos. Tiramos uma tarde para isso, gravamos ao vivo, todo mundo tocando junto, e isso é maravilhoso, porque em diversas gravações cada instrumento é tocado separado. E na música instrumental, para preservar a interação, o calor do improviso, a gente grava junto, ao vivo. E isso foi um desafio para a edição. Mas foi incrível a gravação e o resultado.

“Romani” é um single do projeto “Cartografias”. O podemos esperar da continuação do projeto?

Nesse projeto eu desenvolvo uma série de pesquisas sobre a música tradicional folclórica de diversos lugares do mundo, procuro por um ponto onde eu possa fazer uma mistura desses estilos, desses gêneros, dessa linguagem com a linguagem do show, das formas da música brasileira, dos gêneros da música brasileira, envoltos pela liberdade do jazz.

É um projeto com variadas ações que foi lançado em 23 de junho, no dia do meu aniversário. Lançamos oficialmente esse repertório como um show e a gora estamos nesse processo de divulgar o trabalho. Passamos pelo Festival Literário de Rio Novo, vamos fazer um show no Corredor Cultural de Juiz de Fora, dia 14/12, a partir de 12h, no calçadão da Rua São João. O show vai ser gratuito e vamos mostrar nosso repertório, que está em fase de construção. A ideia é a gravação de um disco, mas ainda precisamos de algum incentivo para viabilizar esse projeto.

 

Em “Romani”, encontramos características da música cigana, árabe e balcânica. Como foi essa pesquisa e como surgiu a inspiração para introduzir essas referências?

As pesquisas eu faço pela internet, entrando em contato com amigos que possuem contato com outras culturas, e na maioria das vezes lendo muito, pesquisando sobre história das músicas. A primeira referência foi a balcânica, pois um amigo tinha começado uma pesquisa sobre música oriental e produziu um trabalho chamado “Impressões do Oriente”, e eu fiquei fascinado por essa música, e a partir disso dei seguimento à linha de pesquisa dele.

A música balcânica, que é do Leste Europeu, é muito rica e estudei muitos materiais. A música árabe e cigana tem muita ligação com o clarinete, que é o instrumento que eu toco, o meu instrumento principal. Pesquisei muito sobre Maqam Music e sobre outras influências.

Foi a partir de muitas partituras, escuta e transcrição, pois essas músicas não possuem muitas coisas escritas. O que caracteriza esses estilos, o que eu posso dialogar com as músicas brasileiras, como posso inserir isso. É leitura, audição, transcrição, e tentar chegar nessas sínteses para produzir um material que tenha essa força, que comunique com todas essas influências e a partir disso tente buscar uma originalidade como uma linguagem, composição e até na forma de tocar.

Caetano Brasil

 

Você fala muito do choro, tanto que possui o projeto “Mão na Roda”. Explica o projeto para gente e sobre sua relação com o choro?

Minha relação com o choro veio desde a oficina de música. E apesar disso não tinha contato com o choro, que é um estilo muito complexo, em termos de linguagem, tecnicamente falando, não é fácil tocar choro. Então, eu me formei como músico, criei minhas condições técnicas de trabalho em volta do choro e o jazz complementa isso.

No choro me expresso mais a vontade, onde me reconheço como indivíduo, como cidadão brasileiro. Me vejo representado por ele. E é uma música viva, tem mais de 150 anos de tradição, todo dia tem gente compondo coisas novas, gente buscando novos diálogos, como eu faço no “Cartografias”, então acho que é uma música eterna.

Por exemplo, você pega uma música do Pixinguinha e ela é fresca, parece que ela foi feita ontem. E isso me encanta, essa possibilidade infinita. E por observar o quanto o choro estava ficando refém dos redutos, de gerações mais velhas, não vendo uma renovação da cena aqui em Juiz de Fora, por diversos motivos, eu decidi criar uma roda de choro didática, onde as pessoas se encontram para tocar um repertório comum, os clássicos.

Um ambiente alternativo de ensino, sem a ideia de hierarquização, e a troca de experiências seria a base da nossa essência. Convidei algumas pessoas que toparam e comecei a disponibilizar partituras e gravações. Nos reunimos toda quarta-feira, às 18h, no Experimental Container Bar. Eu vou provocando os participantes até que eles comecem a falar por si, buscar outras referências, comecem a fazer uma imersão no choro.

Meu objetivo é mostrar que o choro é recente, é para todo mundo, todos podem tocar, que ele pode nos salvar de uma forma mais ampla. Precisamos valorizar nossa cultura. Estamos com um ano e meio de atividade e no próximo dia 12 de dezembro, às 19h, vai ser a nossa última toda do ano, onde vamos apresentar o trabalho que desenvolvemos durante todo o ano.

 

E os planos para o futuro?

Tenho me firmado com uma artista da música instrumental, apesar de fazer outros trabalhos, como a direção musical do show da Clara Castro, além de tocar na banda dela e também com a banda do Emerson Nogueira. Mas com foco muito grande no meu trabalho autoral, buscando circulação para esse trabalho e outros projetos que já tenho em mente.

Além do trabalho com o quarteto “Caetano Brasil e Grupo”, estou montado um duo com meu pianista, o Guilherme Veroneze, e estamos ensaiando um repertório que passa pelo universo do choro. Temos que buscar formas alternativas de trocas de circulação para que a nossa música possa alcançar o máximo de pessoas possíveis, para que possamos sobreviver da música que a gente faz. E claro, continuar com a divulgação do “Cartografias” em 2019, ampliar as relações da música instrumental com o choro e com o jazz, ampliar conexões, trazer meu trabalho para o centro da cena, tentando sobreviver e viver da minha música.

 

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Por: Ana Clara Turchetti