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Capitã Marvel e outros cinco filmes que arrasaram na bilheteria e na representatividade

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Não completou nem uma semana desde a estreia de Capitã Marvel nos cinemas e a bilheteria do momento assusta: o filme arrecadou 490 milhões de dólares de bilheteria mundial. Nos três primeiros dias de estreia, o filme arrecadou 455 milhões de dólares.

E não é só isso que faz o filme ganhar destaque. Capitã Marvel é o primeiro filme solo de super heroína da Marvel e conseguiu atropelar o boicote machista que o ameaçava. Capitã Marvel - A heroína com altas doses de feminismo

Capitã Marvel e outros cinco filmes que arrasaram na bilheteria e na representatividade

O filme mais GRL PWR do Universo Marvel teve uma ótima estreia, sendo a terceira maior no mundo, ficando atrás de “Capitão América: Guerra Civil” e “Vingadores: Guerra Infinita.

De acordo com o site Box Office Mojo, além do sucesso na bilheteria, Capitã Marvel superou “A Bela e a Fera”, que no fim de semana de estreia faturou US$ 357 milhões, ambos estrelados por uma protagonista feminina.

Capitã Marvel ou Carol Danvers é interpretada por Brie Larson, vencedora do Oscar de Melhor Atriz pela atuação no longa “O Quarto de Jack” e feminista.

 

Importância da Capitã para a Marvel

Capitã Marvel é a primeira entre as 21 produções do Universo Marvel a trazer uma heroína sozinha no título. Há a presença de outras protagonistas em alguns outros filmes, mas é uma representação tímida.

A Marvel evoluiu ao longo dos anos, com a Viúva Negra, em “Vingadores”. Ela aparecia como a única mulher em um time com cinco homens. Em “Vingadores: Era de Ultron”, ela ganhou a companhia da Feiticeira Escarlate. Mas levando em consideração que o número de heróis masculinos nas capas também cresceu.

Em “Guardiões da Galáxia”, a representante feminina era Gamora e depois apareceu Nebula e Mantis.

 

Na direção

Uma conquista importante: A diretora do filme, Anna Boden, é a primeira mulher na Marvel e a segunda entre filmes baseados em heróis do Universo Marvel a assumir o cargo. Antes de Anna, apenas Lexi Alexander comandou um filme da marca sozinha, “O Justiceiro: Em Zona de Guerra”, de 2008.

Segundo a revista Veja, entre os 250 filmes mais vistos de 2018, de acordo com pesquisa da Women and Hollywood, organização que combate a desigualdade de gênero na indústria cinematográfica americana, apenas 8% tiveram uma mulher na direção.

Somando os cargos de direção, montagem, direção de fotografia, roteiro, produção e produção executiva, o total chega apenas a 16% das vagas ocupadas por elas no ano inteiro.

Na Marvel, a média é ainda pior: 14,1% enquanto nas outras adaptações é de 10,5%. O cenário começou a melhorar com Pantera Negra, que possui 26% de mulheres. Mas o recorde é em Capitã Marvel: a soma chega a 52,3% de mulheres nesses cargos.

 

O boicote

Antes mesmo de estrear o filme já sofreu boicotes. Tudo começou quando Brie Larson apostou em uma estratégia para a campanha de divulgação do filme.

Em entrevista à Marie Claire, a atriz disse que queria que a imprensa que cobrisse seus filmes fosse mais diversa e que pretendia aproveitar toda a visibilidade que conseguisse ter protagonizando um filme dessa importância para a Marvel. Mas o que a maioria entendeu foi que ela não queria a presença de homens mais velhos e brancos e que o filme não seria para eles.

Com isso, começou um movimento para boicotar o filme, antes mesmo da estreia. Os chamados haters foram até o site Rotten Tomatoes, conhecido por compilar críticas de especialistas e que leva em consideração o apelo popular. As avaliações negativas para o filme começaram a subir, mas isso não impactou a bilheteria nem os fãs de verdade.

Hoje, no Rotten Tomatoes o filme conta com 79% das aprovações.

 

Os campeões de bilheteria e representatividade

 

Jogos Vorazes – Em Chamas (2015)

A trilogia Jogos Vorazes arrecadou muitos cifrões ao longo dos quatro filmes lançados. O sucesso de bilheteria foi “Jogos Vorazes – Em Chamas”, com US$ 865 milhões e apenas no primeiro final de semana cerca de US$ 74,5 milhões. Segundo dados, o filme custou US$ 130 milhões.

A personagem Katniss Everdeen, interpretada por Jennifer Lawrence, assume uma posição mítica de destaque, poucas vezes dada às mulheres, não concordava com o que era imposto, com a injustiça de viver em um lugar que além de passar fome, corria-se o risco de ser condenado ao destino cruel da arena.

A protagonista Katniss representou o feminismo, já que ela foi retratada de forma diferente das convenções sociais de Hollywood, não caindo em estereótipos pré-definidos de personagens femininas no cinema.

Houve também igualdade e até mesmo inversão de papéis com o personagem Peeta Melark, pois em diversos momentos percebemos que ele assumia o papel destinado ao feminino do filme. Capitã Marvel - Jogos Vorazes: Em Chamas também coloca a mulher numa posição diferente

 

Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

O filme Mad Max: Estrada da Fúria arrecadou cerca de US$ 378 milhões em bilheteria mundial, de acordo com o site Box Office Mojo. No Brasil, o longa atingiu R$ 10 milhões durante o final de semana de estreia.

Após 30 anos do lançamento de “Mad Max: Além da Cúpula do Trovão”, a história retornou em 2015. A Imperatriz Furiosa, de Charlize Theron, logo se tornou um ícone feminista. Ela, apesar de ser retratada como um estereótipo de heroína forte (masculinizada, andrógina, assexual), apresenta novas camadas que são mostradas ao longo do filme.

Ela não estava lá para ser um par romântico, ela é uma mulher forte que estava lutando por outras mulheres, e muitas vezes, lutando melhor que Max Rockatansky, e isso incomodou muitas pessoas.

O filme também faz uma crítica em relação a mulher com único fim de reprodução e meramente sexual. Em Mad Max, as próprias mulheres resolvem o problema de não quererem ser máquinas de reprodução. Capitã Marvel - Mad Max também coloca a mulher numa posição diferente

 

Star Wars: O Despertar da Força (2015)

A terceira maior bilheteria do cinema, com US$ 2,06 bilhões, atrás de Titanic, com US$ 2,1 bilhões e Avatar com incríveis US$ 2,7 bilhões. No primeiro final de semana de estreia, Star Wars lucrou, nos Estados Unidos, US$ 247 milhões e no Brasil R$ 1,8 milhões.

Em “Star Wars: O Despertar da Força” podemos ver traços bem claros de igualdade de gênero, onde Rey é inquestionavelmente a heroína e Capitã Phasma, a chefona dos stormtroopers, é uma mulher na nova construção do filme.

Um ponto interessante também é a não sexualização das personagens femininas. A roupas de Rey são soltas e práticas, diferente do que vemos nos anos 80, quando a princesa Leia foi exibida em um biquíni dourado, numa típica cena de mulher erotizada e em perigo.

Segundo informações da agência de notícias Reuter, a intenção da Disney (dona da Lucas Film desde 2012) era estimular a adesão de mulheres à franquia, para tentarem expandir os lucros e fazer valer o investimento de quatro bilhões de dólares na compra da produtora.Capitã Marvel - Star Wars: O Despertar da Força também coloca a mulher numa posição diferente

 

Mulher-Maravilha (2017)

Um dos maiores ícones pop de sexo feminino, a Mulher-Maravilha foi a primeira super-heroína da DC Comics. Com orçamento de US$ 149 milhões. O filme, estrelado por Gal Gadot teve uma bilheteria total de US$ 821 milhões. O longa foi considerado o filme de herói mais rentável de 2017.

Mulher-Maravilha foi criada nos anos 40 inspirada em feministas influentes, como Emmeline Pankhurst e Margaret Sanger. Ela viveu aventuras na Primeira Guerra Mundial, greves trabalhistas e até em protestos pelos direitos reprodutivos.

O filme segundo Mariana Mazzini, do Huffpost Brasil para o Geledes, ousa dizer que é o filme icônico do feminismo na atualidade (isso em 2017). “As feridas do feminismo estão ali, expostas, mais que o corpo da protagonista“.

Segundo a jornalista Mariliz Pereira Jorge, da Folha de São Paulo, o filme retrata o melhor do feminismo modero. “Consciente da capacidade, proativa e assertiva. Decide o que quer ser, apesar da resistência da mãe, age independentemente do cenário masculino, se relaciona com homens de igual para igual, trata o sexo com o mocinho com a esperada naturalidade, sem neuras, passividade e romantismo exagerado“, explica.

Muitas pessoas e mulheres estão dizendo que gostariam de ser a Mulher Maravilha, mas que não conseguem se identificar com ela, e com a Capitã Marvel é o oposto. A Capitã, apesar de ter poderes, é a representação real, de alguém que cai, que precisa se levantar, batalhar e correr atrás.

A jornalista Nilce Moreto e Leon Martins, do canal “Cadê a Chave” concordam com esse ponto, como afirmaram em vídeo. Eles ainda fizeram uma comparação interessante: “É o que acontece com o Super-Homem e o Homem-Aranha. Todo mundo quer ser o Super-Homem, só que ele parece distante de todos, por ser poderoso. E você tem o Homem-Aranha, que é um herói que tem que pagar as contas“, explica Leon.Capitã Marvel - Mulher-Maravilha também coloca a mulher numa posição diferente

 

Pantera Negra (2018)

Pantera Negra ocupa a 9ª colocação dos filmes mais rentáveis do cinema, com UR$ 1,3 bilhão. Segundo Kevin Feige, chefe-estrategista do Universo Cinematográfico, o filme teve um orçamento de, aproximadamente, US$ 200 milhões.

Pantera Negra atingiu a marca do bilhão apenas quatro semanas após sua estreia. A saga de T’Challa é o quinto filme do universo Marvel a conseguir esse valor. Antes dele, apenas “Os Vingadores”, “Vingadores: A Era de Ultron“, “Capitão América: Guerra Civil” e “Homem de Ferro 3” haviam chegado à marca.

Nos Estados Unidos, segundo o site Box Office Mojo, o filme conseguiu mais de US$ 700 milhões. Fora do país, quem mais deu lucro para a Marvel foi a China, com US$ 105 milhões, seguido pelo Reino Unido, com US$ 70 milhões, depois Coréia do Sul, com US$ 42 milhões e Brasil, com US$ 36 milhões.

Além de ser um filme cujo elenco e produção é majoritariamente negro, ele também representa mulheres. Aliás, Pantera Negra seria um filme comum se não retratasse com tanta grandiosidade e orgulho a cultura africana. O filme é quase todo embalado por percussão e cantos tribais. Trilhas genéricas quase não aparecem e o que sobra são espaços para a presença de músicas feitas especialmente para o filme.

Já sobre a representatividade feminina, Pantera Negra se destaca em momentos marcantes, como a personagem mais inteligente de Wakanda é uma mulher. Shuri é cientista e uma garota prodígio, já que é uma adolescente. Ela coordena toda a produção de tecnologia de seu país e constrói coisas incríveis, como o uniforme do herói, apresentado no filme.

Notamos também representatividade quando olhamos para Okoye, general das Dora Milaje. Ao longo do filme, vamos vendo que ela possui uma personalidade forte, senso de humor e uma grande fidelidade à Wakanda.

Uma das primeiras cenas do longa, vemos um grupo de meninas usando roupas tradicionais, sendo sequestradas por mercenários. A cena pode fazer referência ao sequestro de 276 meninas pelo grupo terrorista Boko Haram, em 2014.

A vida delas não gira em torno de um homem. Elas querem conquistar seus objetivos. Elas são políticas, rainhas, princesas, espiãs, guerreiras e vilãs.Capitã Marvel - Pantera Negra é sinônimo de representatividade

 

Todos os filmes citados passam no Teste de Bechdel, que avalia se um longa faz bom uso de personagens femininas. Para ser aprovado, o filme precisa cumprir três regras:

1 – Ter duas personagens com nome;

2 – Ao menos uma cena em que conversam entre si;

3 – O papo da conversa não pode ser sobre homem.

Parece simples cumprir esses requisitos, mas muitos não conseguem. O teste surgiu hà 30 anos, numa tira da cartunista Alison Bechdel, quando ela ironizou a forma como Hollywood sub-representa as mulheres.

Algumas produtoras já filtram roteiros por esse critério. Em 2013, uma rede sueca de cinemas adotou esse teste como critério para recomendar filmes.

Para saber se seu filme preferido passou no teste, acesse o site: https://bechdeltest.com/

Em Capitã Marvel, Carol tem uma variedade de diálogos com pelo menos outras três personagens à sua volta. Os diálogos são os mais variados: memórias, trabalho, tecnologias, moda, perigo, guerras e trabalho.

Segundo o site do Teste de Bechdel, apenas 57% dos 8.000 filmes avaliados foram aprovados nas três perguntas.Capitã Marvel - A heroína com altas doses de feminismo

 

O motivo da mudança

A presença feminina não foi coincidência. Segundo a produtora executiva dos diversos títulos da Marvel, Victoria Alonso, o estúdio tinha recebido a pressão do público e estava determinado a mudar e incluir mais mulheres em posições de poder nas produções, e que isso era uma mudança consciente.

Victoria disse, em um evento da organização Women in Technology em 2016 que a empresa teve sim desigualdade de gênero por algum tempo. “No último ano, isso chegou ao limite e deixou de ser aceitável para as mulheres e para alguns homens. A mudança é necessária, e esperamos poder criar uma Hollywood mais balanceada para a próxima geração. Não quero ser a única mulher na sala”, desabafou Victoria.

 

Por: Ana Clara Turchetti