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Qual a semelhança entre as manifestações contra e pró-Bolsonaro?

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Manifestações mostram um país dividido 

Duas manifestações, no mesmo mês, uma contra medidas do governo e uma a favor do presidente e das medidas propostas por ele e pelos seus ministros. A primeira manifestação foi feita no dia 15 de maio, mobilizou 222 cidades do país, em 26 estados e no Distrito Federal. Já a manifestação a favor do governo, foi realizada no dia 26 de maio, mobilizou 156 cidades, nos mesmos 26 estados e no Distrito Federal.

Semelhanças entre manifestações contra e pró-Bolsonaro
Imagem do portal G1

Segundo mobilizações nas redes sociais, uma outra manifestação contra o contingenciamento de verba para a educação superior está sendo marcada para o dia 30 de maio, quinta-feira. Não há informações sobre outros atos a favor de Bolsonaro.

 

Pelo que manifestavam?

O movimento realizado em 222 cidades do país no dia 15 de maio era declaradamente contra o governo Bolsonaro e suas medidas, como o contingenciamento de verba para a área da educação, anunciado pelo Ministério da Educação (MEC).

No mesmo dia, universidades e escolas também fizeram paralisações, após a convocação de uma greve de um dia por parte de entidades ligadas a sindicatos, movimentos sociais e estudantis e partidos políticos. Os atos foram pacíficos.

Já a manifestação do dia 26 de maio foi em apoio ao presidente Jair Bolsonaro e as propostas como a reforma da Previdência e o pacote anticrime, apresentado pelo ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro. Em alguns locais, algumas pessoas também gritavam contra o Congresso e Supremo Tribunal Federal.

Semelhanças entre manifestações contra e pró-Bolsonaro
Manifestação do dia 15 de maio. Foto: Reprodução

De acordo com o jornal Estadão, as mobilizações mais significativas foram registradas em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo classificados por Bolsonaro como espontâneos e como um “recado àqueles que teimam, com velhas práticas, não deixar que este povo se liberte”.

Semelhanças entre manifestações contra e pró-Bolsonaro
Manifestação do dia 26 de maio. Foto: Reprodução

O que disse o presidente do Brasil em relação as manifestações?

Durante as manifestações contra o governo, Jair Bolsonaro estava nos Estados Unidos. Em seu Twitter, o presidente não fez nenhum comentário sobre o que estava acontecendo em nosso país.

Mas assim que chegou em Dallas, no mesmo dia 15, o presidente afirmou que os estudantes em manifestação contra o corte de verbas para a Educação são “massa de manobra” e “idiotas úteis, uns imbecis”. Conforme Bolsonaro declarou, eles são manipulados por uma minoria que comanda as universidades federais.

“É natural, é natural, mas a maioria ali é militante. Se você perguntar a fórmula da água, não sabe, não sabe nada. São uns idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais no Brasil”.

Semelhanças entre manifestações contra e pró-Bolsonaro
Ato contra cortes na educação na capital paulista. Foto: Bruno Rocha/Fotoarena/Agência O Globo

Porém, no dia 26 de maio, em entrevista à Record, Bolsonaro declarou que exagerou no termo usado para definir os manifestantes. Segundo ele, o “certo são inocentes úteis”. Para explicar, Bolsonaro disse que os manifestantes são garotos inocentes, que não sabiam o que estavam fazendo lá.

“Não houve corte, houve contingenciamento. Eu deixei de gastar, não tirei dinheiro. Segurei aproximadamente 3,6% do montante, que seria 30% de 12% das despesas discricionárias e a molecada foi usada por professores inescrupulosos para fazer manifestação política contra o governo”, disse Bolsonaro.

Já em relação a manifestação a favor das propostas e do governo, a primeira publicação de Jair Bolsonaro em seu Twitter foi um vídeo gravado no metrô de Copacabana, no Rio de Janeiro. No vídeo, os manifestantes andam com camisas e bandeiras verde e amarelo, cantando “A nossa bandeira jamais será vermelha”.

A próxima publicação foi sobre o ato em São Luis do Maranhão, com os participantes falando o slogan de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”.

Semelhanças entre manifestações contra e pró-Bolsonaro
Manifestação pró-Bolsonaro, dia 26 de maio. Foto: Nelson Almeida/AFP

Mais uma publicação, dessa vez sobre o ato em Juiz de Fora, cidade em que Bolsonaro levou uma facada durante a campanha eleitoral. No vídeo publicado pelo presidente, os manifestantes gritavam: “O choro é livre, o Lula não”.

Ele também escreveu que “Os brasileiros foram pacificamente às ruas para nos cobrar. Sinal que a sociedade não perdeu as esperanças de que nós políticos escutemos sua voz. Não podemos ignorar isso. É hora de retribuirmos esse sentimento. Estamos todos no mesmo barco e juntos podemos mudar o Brasil!”, escreveu Bolsonaro.

Ele ainda declarou que os atos de domingo, dia 26, vieram “do coração do povo” que, ao seu ver, quer que os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) trabalhem com uma pauta definida pelo país. Ele ainda ressaltou que não houve boletins de ocorrência, carros queimados e prédios depredados nas ruas do Brasil.

 

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Manifestações segundo especialistas

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, disse que a manifestação do dia 26 de maio serviu para mostrar que o presidente possui apoiadores, mas sua popularidade ainda é pequena. As manifestações deste domingo mostram que Bolsonaro tem apoiadores dispostos a ocupar as ruas, mas não é um mito de popularidade com capacidade de constranger o Congresso. O ato na Avenida Paulista (em São Paulo) ocupou várias quadras, mas o público estava espalhado, deixando espaços vazios“, disse Carlos Melo.

Antônio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) disse que as manifestações a favor de Bolsonaro não interfere em sua popularidade e que possui um tamanho proporcional à popularidade do presidente. “Os atos de hoje não fortalecem nem enfraquecem o presidente. Como não houve uma mobilização massiva, não foi criado capital político novo para o presidente”, avalia.

Já o cientista político da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Geraldo Tadeu Monteiro, afirma que a manifestação a favor do governo seja um “tiro no pé”, pois pode dificultar a relação do presidente com o Legislativo. “Nitidamente, o movimento tinha objetivo de constranger o Congresso. Se fossem dois milhões de pessoas na rua, certamente o Congresso ficaria intimidado, mas como ficou aquém do esperado pelos organizadores acaba contribuindo para piorar a relação“, analisa.

Já o Palácio do Planalto afirma que o saldo das manifestações foi positivo. Interlocutores do presidente avaliaram que, embora não tenham sido grandiosos, os eventos nas ruas não podem ser desconsiderados e mostraram que parte da população apoia a maneira como Bolsonaro tem conduzido sua relação com o Congresso.

 

Mídia hostilizada

Durante a manifestação do dia 26 de maio a imprensa também foi alvo de discursos. Uma equipe da Rede Globo chegou a ser expulsa por pessoas que estavam no ato, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Um repórter e um cinegrafista faziam a cobertura do ato quando começaram a ser perseguidos e hostilizados com palavrões.

Já em Belém do Pará, no meio de uma passeata, um grupo de motoqueiros pedia que os manifestantes não falassem com a imprensa. De acordo com informações, eles estavam afirmando que os jornalistas eram petistas infiltrados que estavam querendo que os apoiadores do presidente respondessem a questionários.

 

Faixa  “Em defesa da educação #OrgulhoDeSerUFPR

Manifestantes pró-Bolsonaro arrancaram uma faixa com os dizeres:  “Em defesa da educação #OrgulhoDeSerUFPR #UniversidadePública #EuDefendo“. A faixa estava na fachada do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. Enquanto a faixa era retirada do local pelos manifestantes, quem assistia, que também estava no ato, aplaudia.

Segundo um manifestante afirma, em um vídeo nas redes sociais, que um “prédio público não pode ser utilizado de forma ideológica”. Já o reitor da UFPR, Ricardo Marcelo Fonseca, em um post no Twitter, classificou a ação como “inacreditável”.

 

Violência

Nos atos do dia 15 de maio foram registrados alguns episódios de violência. A Polícia precisou usar bombas de gás e encurralou os manifestantes em alguns pontos, como no metrô.

Conforme informações da polícia, a repressão começou após manifestantes encapuzados colocarem fogo em ônibus. Um caso semelhante aconteceu em Brasília.

 

Fato é que, as manifestações do dia 15 de maio foram maiores, em relação a do dia 26 de maio. Conforme alertou alguns especialistas, a pequena participação de pessoas nas manifestações demostra a fraca rede de apoio que o governo criou até agora, com quase cinco meses de governo.

 

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Por: Ana Clara Turchetti