Pular para o conteúdo

Jair Bolsonaro pergunta: O que é articulação política?

Escrito por


É preciso fazer o “toma lá dá cá” para sobreviver

As coisas não andam fáceis para Jair Bolsonaro, nem para os brasileiros. Os três primeiros meses do Governo não parecem muito animadores para a população, julgando pelos números apresentados pela pesquisa Ibope na quarta-feira (20).

Segundo o levantamento, 34% considera o governo de Jair Bolsonaro ótimo/bom, 34% regular, 24% ruim/péssimo e 8% não sabe/não respondeu.Articulação política - Bolsonaro sofre com falta de coalizão no governo

Jair Bolsonaro pergunta: O que é articulação política?

A avaliação positiva do presidente caiu 15 pontos percentuais desde sua posse. Mas comparando com o mês de fevereiro, os números são diferentes:

39% bom/ótimo;

30% regular;

19% ruim/péssimo.

 

A forma como Bolsonaro governa também foi avaliada, sendo que 51% aprovam, 38% desaprovam e 10% não souberam ou não responderam. Em fevereiro, porém, esse número era diferente: 57% de aprovação e 31% de desaprovação.

O que se tem percebido, nas últimas semanas, é que no governo estão todos contra todos, com apoiadores criticando ministros, aliados reclamando de assessores, deputados minimizando a atuação de membros da Esplanada dos Ministérios.

Além disso, já tiveram baixas no Ministério da Educação, é um vai e vem de informações e a principal proposta, que é a reforma da previdência, está parada com previsão de votação no dia 17 de abril na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.

E tudo isso porque há grandes conflitos no Congresso, e os protagonistas são Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e Jair Bolsonaro.

 

O desentendimento de Bolsonaro e Maia

Tudo começou no dia 14 de março, quando Rodrigo Maia determinou a criação de um grupo para analisar o projeto de lei enviado por Sergio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública, para combater o crime organizado, o famoso Pacote Anticrime.

O grupo de trabalho tem o prazo de 90 dias, na prática, para debater as matérias. Foi então que Maia suspendeu momentaneamente a tramitação da maior parte do pacote legislativo do ministro da Justiça.

Sergio Moro, no dia 20 de março, enviou uma mensagem cobrando que Maia acelerasse o pacote anticrime. No texto, Moro teria acusado Rodrigo Maia de descumprir um acordo. Numa resposta seca, Maia pediu a Moro respeito e afirmou que era ele o presidente da Câmara, ou seja, é ele que deve definir a pauta de votações da Casa.

Maia achou a atitude de Moro inconveniente e disse que não havia descumprido nenhum de acordo. O presidente da Câmara disse que acertou com o Palácio do Planalto a priorização da pauta da Reforma da Previdência, considerada crucial para a gestão de Bolsonaro. Após isso, colocaria o texto de Moro para tramitar.

Para agravar a situação, Rodrigo Maia disse que não há nenhuma novidade no Pacote Antricrime de Sergio Moro, e que o projeto era similar ao do ministro Alexandre de Moraes, quando ele ainda era ministro da Justiça no governo Temer. “Eu fiz aquilo que eu acho correto. O projeto é importante, aliás, ele está copiando o projeto direto do ministro Alexandre de Moraes. É um “copia e cola”. Não tem nenhuma novidade, poucas novidades no projeto dele”, disse Maia.

Foi então que Sergio Moro rebateu as críticas disparadas por Maia, e disse esperar que o seu projeto “tramite regularmente e seja debatido e aprimorado pelo Congresso Nacional  com a urgência que o caso requer”. O ministro da justiça afirmou que talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais.Articulação política - Bolsonaro e Rodrigo Maia passam por crise no governo

O presidente da Câmara anda nervoso

No dia 21 de março, o ex-ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, foi preso preventivamente pela força-tarefa da Lava-Jato. A esposa de Rodrigo Maia é enteada de Moreira Franco.

Segundo informações do Ministério Público Federal, Moreira Franco monitorava as supostas propinas da organização criminosa que seria liderada por Michel Temer. Nos bastidores da política, os rumores era de que a decisão da prisão de Moreira Franco seria o verdadeiro motivo da briga entre Sergio Moro e Rodrigo Maia.

Se você está por dentro da família Bolsonaro, sabe que o presidente e os filhos são fãs número um das redes sociais. Pois bem, Carlos Bolsonaro perguntou no Instagram “Por que o presidente da Câmara anda tão nervoso?”, como uma indireta a prisão de Moreira Franco.

Após isso, no dia 22 de março, Rodrigo Maia ligou para o ministro da Economia, Paulo Guedes, e ameaçou abandonar a articulação da reforma da Previdência. Irritado, o presidente da Câmara disse que se é para ser atacado nas redes sociais por filhos e aliados do presidente, o governo não precisa de sua ajuda.

Jair Bolsonaro disse, ao saber do comunicado de Maia, que ele não deu motivos para o presidente da Câmara sair, e o comparou a uma namorada que quer ir embora. “Você nunca teve uma namorada? E quando ela quis ir embora, o que você fez para ela voltar, não conversou? Estou à disposição para conversar com o Rodrigo Maia, sem problema nenhum”, disse Bolsonaro.

Já não é de hoje que Rodrigo Maia demonstra irritação sobre a forma que o governo está lidando com a tramitação da Reforma da Previdência. Nos bastidores, Maia teria incumbido Jair Bolsonaro de conter as manifestações de Carlos nas redes sociais. O presidente da Câmara ainda disse que ao não condenar a ofensiva de ódio na internet, Bolsonaro despreza o seu trabalho de articulador da reforma da Previdência.

Segundo o jornal El País, o economista e doutor em ciência política, Ricardo Sennes, disse que os primeiros meses de governo Bolsonaro derrubou o ânimo das pessoas. “Temos a percepção de que o Governo tem uma agenda econômica clara, comandada pelo ministro da economia, Paulo Guedes, inclusive com uma agenda de infraestrutura, mas não há uma coordenação política à altura. Até agora há baixíssima solidez da estratégia política“, explica Ricardo.

Para o vice-presidente, Hamilton Mourão, a crise entre Maia e Bolsonaro parece briga de rua. “Parece briga de rua. Precisa acalmar as bases. O momento é de clareza, paciência e determinação”, disse. Questionado sobre como se resolve a situação, ele disse: “Conversando, né? Precisa conversar”.Articulação política - Moreira Franco e Rodrigo Maia

A falta de articulação

Bolsonaro passou a campanha para a presidência afirmando que iria inaugurar uma nova forma de fazer política e que iria eliminar a “velha política” ou ao que chamam de “toma lá dá cá”, que é por muitos associada à corrupção diante da série de escândalos da Lava Jato.

O presidente ocupou o cargo de deputado federal por quase 30 anos e, como um bom crítico da política tradicional, formou seu governo deixando de lado a lógica de composição com os partidos. Ele priorizou as bancadas temáticas, que se unem por setor, como a bancada evangélica, agropecuária ou segurança pública.

Para aprovar a reforma da Previdência, Bolsonaro teria que ampliar o diálogo com outras bancadas e em quase três meses de governo, isso não aconteceu.

A articulação é necessária para construir uma base de apoio à reforma, dialogando com deputados de todas as vertentes ideológicas.

Quem estava articulando a reforma era Rodrigo Maia, mas em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, disse que não fará mais isso. “Eu restabeleci minha posição original de presidente da Câmara, que é pautar. Vou continuar mostrando o que vai acontecer com o Brasil caso essa reforma não seja aprovada”, disse Maia.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Rodrigo Maia disse que Bolsonaro não pode terceirizar a articulação como ele estava fazendo. “Transfere para o presidente da Câmara e do Senado uma responsabilidade que é dele e fica criticando: ‘Ah a velha política está me pressionando’. Ele precisa assumir essa articulação porque ele precisa dizer o que é a nova política. Nós estamos na nova política, nós queremos a nova política, o Brasil quer mudar”, disse Maia.Articulação política - Bolsonaro concede entrevista à Band

Segundo o cientista político Marco Antônio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas, Rodrigo Maia agiu certo em se retirar do papel de articulador. “A responsabilidade de articulação política para a aprovação da reforma da Previdência cabe ao presidente Jair Bolsonaro, e não ao presidente da Câmara. Maia deve garantir a tramitação do projeto, a agenda e a lisura do processo. Mas é Bolsonaro e seus líderes de governo, que deve negociar os apoios para o avanço do projeto no Congresso”, diz.

Bolsonaro perguntou “Agora, o que é articulação? O que é que está faltando eu fazer? O que foi feito no passado não deu certo e não seguirei o mesmo destino de ex-presidentes, pode ter certeza disso.” O presidente afirmou que não fará articulação para a reforma ser aprovada, pois articulação para ele significa algum tipo de corrupção. E como Jair Bolsonaro mesmo disse: “Não vou jogar dominó com o Lula e o Temer no xadrez”.

Mas em entrevista ao Datena, na quarta-feira (27), Bolsonaro disse que não faz articulação política devido ao estado de sua saúde, que o impede de despachar até tarde. “Quando você olha para o Parlamento, você não vê apenas o presidente da Câmara ou o do Senado, você vê 594 congressistas. E grande parte deles quer falar comigo. Para conversar os mais variados assuntos. Eu não tenho como atender a todo mundo”, afirmou Bolsonaro.

Na entrevista à Band, Bolsonaro disse que está fazendo o melhor que pode na articulação política, embora tenha ficado “20 e poucos dias fora de combate”, enquanto se recuperava da cirurgia após o atentado a faca que sofreu.

Antes da entrevista de Bolsonaro, Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil e também responsável pela articulação política, afirmou que Bolsonaro passaria a receber presidentes de partidos e líderes das bancadas a partir de abril, quando o presidente retornará de uma viagem a Israel.

De acordo com o jornal O Globo, o ministro ainda afirmou que o governo tem “humildade” para reconhecer que houve erro na relação com o Congresso.Articulação política - Bolsonaro e Michel Temer

 

A importância da articulação no governo

E se você está igual Bolsonaro perguntando o que é articulação, explicamos:

Segundo Sérgio Abranches, cientista político, a “a articulação é a ação de liderança do presidente e de seus líderes de governo, seus líderes de partido, para manter a coalizão coesa e convencida da necessidade de votar a agenda do presidente”.

Para Bruno Boghossian, colunista no jornal Folha de S.Paulo e jornalista, “a articulação é uma negociação que, não necessariamente, envolve valores monetários, financeiros e de poder”.

Sérgio diz que para se fazer articulação o instrumento mais legítimo é a persuasão, a defesa da consistência técnica e da necessidade objetiva da agenda presencial. “Nos governos de coalizão, essa persuasão sempre levou também a compartilhamento de poder, pois na negociação sempre há concessões de parte a parte”, afirma Sérgio. Talvez seja por isso que Jair Bolsonaro tenha tanto receio em articular com outros partidos.

O cientista político ainda diz que fazer essa “aliança’ agora já é mais difícil, pois como ele se recusou a fazer no começo, agora Bolsonaro já não tem a força eleitoral que tinha. “Ele tem demonstrado pouco empenho, pouco interesse na pauta. Ele não fez nenhuma defesa forte e firme nem da reforma da Previdência nem do pacote anticrime. Ele insiste em pautas menores, como escola sem partido e outras mais comportamentais, que não unem, desunem. Então, nesse momento, é muito difícil ele conseguir formar maioria para a agenda dele”, explica Sérgio Abranches.

Bruno também concorda com a visão de Sérgio. “O governo parece não estar disposto a ter uma coalizão com algum grupo político. O presidente teria que usar a sua popularidade, capital político para fazer avançar essa agenda para pressionar os parlamentares”, diz o jornalista.

Bruno Boghossian destaca que a articulação no governo é o que dá a sustentação e convencimento ao governante. “Além disso, a sustentação política que o congresso dá ao executivo é crucial para a própria sobrevivência do poderoso eleito. A degradação da relação entre congresso e executivo pode levar a uma crise que culminaria em um impeachment, como já vimos acontecer”, explica o jornalista.Articulação política - Bolsonaro e reforma da previdência

Impeachment além de crimes cometidos

O fato é que a relação do presidente do Brasil com o presidente da Câmara se tornou importante pelos últimos acontecimentos. Não apenas falando de Bolsonaro e Rodrigo Maia, mas do passado do Brasil.

 

Dilma e a relação com Eduardo Cunha

Delcídio do Amaral, em 2016, passou por uma delação premiada e disse que Dilma Rousseff precisou intervir em um esquema de corrupção que envolvia Eduardo Cunha.

Delcídio, que é ex-ministro de Minas e Energia, ex-senador pelo PT-MS e que já foi líder no Senado pelo mesmo partido, disse que a corrupção em Furnas “passou da conta”. “Dilma teve praticamente que fazer uma intervenção na empresa para cessar as práticas ilícitas, pois existiam muitas notícias de negócios suspeitos e ilegalidade na gestão da empresa; que, ao que parece, ‘a coisa passou da conta”, trecho retirado da delação premiada de Delcídio do Amaral.

Dilma modificou a diretoria de Furnas e esse foi o início do enfrentamento da presidente com Eduardo Cunha, pois ele ficou contrariado com a retirada de seus aliados de dentro da companhia.

Em abril de 2017, o então presidente Michel Temer participou de um programa de entrevista na emissora Band e fez uma declaração que pode ter pegado algumas pessoas de surpresa.

O então presidente disse que, quando ainda exercia o cargo de vice-presidente, conversou com Eduardo Cunha sobre a arquivação do processo de impedimento do governo de Dilma Rousseff.

A questão era a seguinte: Eduardo Cunha precisava de três votos do PT no Conselho de Ética e segundo Temer, tinha ficado certo de que o PT concederia esses votos ao presidente da câmara. Por isso, ele iria arquivar os pedidos de impeachment de Dilma, que já estava correndo.

Eduardo Cunha afirmou essa informação para Temer e disse: “‘Ora, que bom. Muito bom. Assim acaba com esse história de você estar na oposição, etc. Até porque, convenhamos, eu sou o vice-presidente da República, do PMDB, e fica muito mal essa situação de você, a todo momento, estar se posicionando como oposicionista”, disse Temer.Articulação política - Eduardo Cunha e Dilma

Segundo o então presidente, naquele dia mais tarde, ele disse a Dilma que poderia ficar tranquila, porque o presidente da Câmara iria arquivar os processos de impedimento. Eis que no dia seguinte, Temer assistiu no noticiário que o PT votou contra Eduardo Cunha. Passadas algumas horas, Cunha ligou para Temer e disse que iria chamar a imprensa e dar início ao processo de impedimento.

Michel Temer então disse: “Então, veja que coisa curiosa: se o PT tivesse votado nele naquela comissão de ética, é muito provável que a senhora presidente continuasse [no mandato]”.

Há também a hipótese de que, no fim do primeiro mandato, Dilma passou a isolar o PMDB, maior parceiro da base, e isso também deixou algumas pessoas irritadas, inclusive Eduardo Cunha.

Quando a então presidente percebeu o que estava acontecendo, ofereceu a Michel Temer um cargo de articulador político, mas na verdade ela nunca permitiu que ele desempenhasse a função. “Ela não demonstrou conhecimento de como uma coalizão é formada e, sobretudo, mantida“, afirma Mariana Llanos, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga).

Bruno Boghossian afirma que foi essa degradação entre Congresso e  Executivo uma das principais razões para seu impeachment. “Mesmo com as Pedaladas Fiscais e Lava Jato ela talvez não teria caído. Ela só sofreu impedimento porque perdeu a sustentação política. O Temer, por exemplo, tinha gravações claras contra ele, mas ele se sustentou, ficou até as novas eleições, mesmo com acusações. Ele fez articulação política, ele fez o toma lá dá cá”, diz o jornalista.

 

Sejamos claros: a situação fica mais difícil a casa dia para Bolsonaro e seu governo. O presidente parece que ainda não entendeu como se governa, que é preciso dialogar, articular e explicar ou então fazer a “tal da “nova política” que ele tanto fala.

 

Por: Ana Clara Turchetti