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Fellet com Fritas: Medo de Avião

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Um pouco sobre minha relação com seres alados

Foto: Dudu Mazzei

A fala do atendente no guichê de check-in de repente virou cena de Chaplin; ficou muda. Apenas minha visão enquadrava a bruxa pousada perto da esteira para despachar bagagem. Os outros sentidos passavam por um mau contato qualquer e não processavam mais nada.

Em condições normais, ver esse tipo de inseto já me causa certa repulsa; antes de embarcar, então, parece mau prenúncio. Para completar o ruim presságio, pouco antes de o avião decolar, um cheiro de flor de velório capitaneava o ar. Medo!!!

Mas transcorreu tudo bem. O medo é perito em alterar os graus da realidade, transformando-a em zona de alta periculosidade; em inimiga.

Contida minha fobia de voar a bordo da grande ave sintética, refaço mentalmente o percurso aéreo e medito sobre um piloto sair de Goianá – MG e chegar à Turquia ou a qualquer outro destino aleatório na superfície terrestre, sem sinalização física, apito de guarda, semáforo; apenas pelo azul e pelo cosmo virtual – este invisível e avassalador como os micróbios.

A esta altura, a bruxa que assombrava os clientes mais supersticiosos no balcão de embarque já retomou seu plano de voo. Alguma tecnologia secreta e divina lhe serve de guia no deslocamento. Não há GPS, copiloto tampouco seres etéreos indicando “conversão à esquerda”.

Já euzinha, cá cumprindo minhas milhas enquanto humano, sigo com meu medo portátil dos seres alados: tanto os orgânicos quanto os postiços.

 

Por: Carolina Fellet