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Fellet com Fritas: Machado Certeiro

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Fellet com Fritas
Foto: Dudu Mazei

Peguei um Uber em Campinas e o jovem motorista, todo consternado, contava da passageira anterior: “moça, ela recebeu uma ligação solicitando a presença ao Quinto Batalhão da Polícia Militar, porque o filho de 17 anos, que ela criou com todo amor e dedicação, acompanhado de dois outros amigos, invadiu a casa de uma senhora durante a madrugada e a espancou.”.

Em outro Uber – desta vez, sob a direção de uma senhora superdescolada, tanto pelo corte de cabelo assimétrico e muito moderno quanto pelo gosto musical psicodélico – de repente, fomos surpreendidas por um carro vindo em sentido oposto, com os faróis tão altos que a obrigaram a frear bruscamente o veículo que dirigia, correndo o risco de levar uma batida por trás. A reação da condutora ao pirilampo ambulante foi automática: “é por isso que eu sou a favor do aborto. Ele me pouparia de conviver com gente assim.”.

No mesmo dia dessas corridas, topei com um idoso em um terminal rodoviário de uma cidadezinha pacata vizinha de Campinas. Pelo papo, o senhor estava levemente embriagado e rapidamente a impressão se confirmou: de dentro da sacola do supermercado, ele sacou uma garrafa de vinho e ali mesmo, à espera do ônibus, deu algumas goladas. Se ele tem filhos ou família, não deu tempo de saber. Mas, caso aquela amostra de vida me exigisse um diagnóstico, eu atestaria: avançado estágio de abandono.

Concluí aquele meu domingo com um Machado certeiro: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”.

Por: Carolina Fellet