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Fellet com Fritas: Assim Caminha Nossa (Des)humanidade

Escrito por


Foto: Dudu Mazzei

I

O salto fino pisando as britas deixava a marcha da madame desconjuntada. Para completar, o atendente do estacionamento sempre a tratava com a impessoalidade destinada a todos os outros mensalistas. Do alto do seu complexo de superioridade, ela deveria andar com batedores e ter assessores proativos para resolver as burocracias inerentes ao seu dia a dia de executiva. Mas, na escala da realidade, era ela mesma que se autogeria. E que estacionava sua Mercedes sempre na mesma vaga do rotativo.

Revoltada com o indiferentismo do atendente, uma vez ela chegou ao trabalho reclamando do mau humor dele. Ele, que estava com sobrepeso, era sozinho e, pelo varal instalado num canto ocioso do terreno com camisas XG dependuradas, morava no serviço; num quartinho cheio de goteira e mofo.

 

II

O jardim mais bonito da rua era de um vizinho. Ele não arava a terra nem podava sua flora particular. Contratava um jardineiro para o fazer. Seu Moacyr – era este o nome do trabalhador – tinha o cabelo grisalho, estatura baixa, mãos bem ásperas de luta e poucos dentes na boca. Vestia-se e comportava-se como um camponês. Embora tivesse um vocabulário próprio e poético, era de poucas palavras.

Da janela da minha casa, constantemente eu ouvia o vizinho xingando o jardineiro aos berros. Nunca lhe ofereceram um lanche tampouco algumas palavras de ternura ou gratidão pelo trabalho prestado. Até hoje me pergunto como aquele jardim florescia tão lindo mesmo sendo herdeiro de tanto sofrimento.

 

III

Maria Eduarda é casada de pouco e, nos diálogos sociais, menciona muito Aldenora, sua empregada doméstica. No início, ela tinha uma performance excelente, mas agora dá umas tapeadas: não limpa direito o ralinho do banheiro, não rega as plantas do jardim de inverno no período certo e atende ao telefone sem muito polimento. Quando o assunto descamba para as tendências do mundo fashion, Duda se orgulha ao dizer que só compra na Richards. Sua última aquisição na loja pagaria três sobrevivências de Aldenora.

 

 

Por: Carolina Fellet