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Fellet com Fritas: Ainda dá Tempo

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Foto: Dudu Mazzei

Raimundinho foi pipoqueiro por 15 anos no pátio do colégio onde eu estudava, mas uma escoliose severa o impediu de continuar trabalhando. Fernanda ficou noiva de Vitório, porém ele passou em um concurso no Piauí e o noivado não resistiu ao deslocamento geográfico. Izaura finalmente recebeu o transplante de rim. A expectativa é de que ela tenha uma sobrevida de dez anos. Luiz Otávio já cumpriu um terço da pena em regime fechado; está prestes a conseguir o semiaberto, porque leu 30 livros em um ano.

Há uma colônia enorme de gente recomeçando.

Dona Gabriela comprou os ingredientes para fazer um bolo de morango com chocolate; no sábado, irá conhecer Maria Júlia, sua primeira nora. Juliano fez 18 anos, tirou carteira e seu pai, Renato, lhe dará o Ford Ka que saiu no consórcio. Guilherme vai ter a primeira aula de piano na semana que vem. Ele não faz ideia do que seja clave de sol nem de fá.

Existe uma variedade de futuro engatilhada para cada um.

Cristiana está lavando as xícaras dos clientes da cafeteria e contando da neblina na zona rural que cobriu o trecho até o ponto de ônibus. Nivaldo assume o turno da portaria; Ramon foi quem pernoitou ali. Maria Flor acaba de nascer com 5 kg, 50 cm e muito cabelo. Silvana teve politraumatismo e morreu no local do acidente.

Tem um excesso de atualidade se consumando na vida humana.

 

Por: Carolina Fellet