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DEM: o partido político que pode mandar novamente no Brasil

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Conheça a história e a realidade atual do Democratas

Jair Bolsonaro (PSL) e Rodrigo Maia (DEM).

Após uma campanha eleitoral cheia de ataques e polêmicas provenientes de todos os lados, Jair Bolsonaro foi eleito Presidente da República em outubro de 2018. O ex-deputado recebeu mais de 57 milhões de votos e colocou o seu partido, PSL, no cargo mais poderoso do país.

No entanto, outro partido tem se colocado como protagonista do Brasil: o DEM. Presidido por Antônio Carlos Magalhães Neto, atual prefeito da Bahia, o Democratas surgiu oficialmente em 2007, mas suas origens estão em partidos bem conhecidos da população brasileira. Atualmente o DEM é considerado um dos grandes aliados de Bolsonaro e conta com três dos maiores cargos da república: Presidência da Câmara, Presidência do Senado e Ministério da Casa Civil.

Conheça agora a história completa do DEM abaixo e saiba como o partido influencia o Brasil há anos.

DEM: o partido político que pode mandar novamente no Brasil

 

ARENA (Aliança Renovadora Nacional)

DEM - Ombrelo
Durante a Ditadura Militar o Brasil vivia um bipartidarismo protagonizado por MDB e ARENA.

Durante o período da Ditadura Militar, o ARENA foi o partido responsável por dar “base” ao regime instaurado no país em 1964. Na época o Brasil vivia um sistema bipartidário, no qual o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) atuava como uma oposição tolerável (os outros partidos eram proibidos pelo governo). O registro oficial do ARENA aconteceu dois anos após o golpe, em 1966, e o partido tinha o conservadorismo e o combate à corrupção como principais premissas.

As minorias ativistas e o comunismo também eram vistos como inimigos da sigla, que defendia o nacionalismo e o totalitarismo com unhas e dentes. Não por acaso, o ARENA é conhecido até hoje como o “partido da ditadura”. Nos anos 1960 e 1970, inclusive, era chamado de “partido do sim, senhor”, pois era extremamente submisso aos militares e contava com políticos agressivos e conservadores. Tais membros vinham da UDN e do PSD e fizeram com que o ARENA surgisse já com 273 parlamentares em âmbito nacional.

A participação do partido no governo militar é questionada por alguns historiadores. Uma parte dos especialistas afirma que o ARENA era diretamente responsável e cúmplice das atitudes dos governantes. Outros, no entanto, dizem que o partido teve espaço apenas nos governos de Costa e Silva (1967 – 1969) e Geisel (1974 – 1979), sendo irrelevante durante os anos de chumbo do governo Médici.

Contudo, a participação do ARENA no contexto político da época é muito relevante, tendo em vista que o partido tinha como principal objetivo promover argumentos legislativos que validassem os atos dos militares. Por conta disso, feriram (direta e indiretamente) direitos básicos da democracia, como a liberdade de expressão e o direito à vida.

Em 1979 o multipartidarismo foi reintegrado à política brasileira pelo então presidente João Figueiredo, derrubando o AI-2 (ato institucional de 1965 que acaba com os partidos políticos) e o ACP-4 (ato complementar que implementou o bipartidarismo). Dessa forma, o ARENA acabou. Ou melhor, mudou de nome e passou a se chamar Partido Democrático Social.

 

PDS (Partido Democrático Social) e PFL (Partido da Frente Liberal)

Paulo Maluf e Sarney foram protagonistas na criação do PDS e do PFL.

Criado como sucessor imediato do ARENA, o PDS surgiu em 1980, mas só disputou eleições em 1982. No pleito, o partido foi o que mais elegeu governadores, prefeitos e deputados. Algumas figuras icônicas da política brasileira, por sinal,  faziam parte da legenda. É o caso de Sarney, Collor, Marco Maciele Maluf.

O manifesto de lançamento do partido demonstrava apoio às votações diretas, apesar de ter suas origens no ARENA. Contudo, foi a partir do fortalecimento do movimento “Diretas Já”, em 1983, que o PDS começou a ruir. Brigas internas entre as principais figuras da sigla eram recorrentes, mas foram agravadas durante o processo eleitoral indireto de 1985.

Paulo Maluf, na época governador de São Paulo e apoiador do governo de Figueiredo, era o nome mais forte do partido para ser presidente. Uma ala do PDS, entretanto, era contrária à candidatura. Liderados por Antônio Carlos Magalhães (ACM) e José Sarney, tal setor do partido demonstrava uma simpatia pela ideia de apoiar Tancredo Neves, candidato do PMDB. A ideia de não apoiar Maluf ficou consolidada em julho de 1984.

ACM foi o grande nome da frente liberal que viria a formalizar apoio a Tancredo Neves. O baiano foi chamado de traidor pelas alas mais radicais do PDS e disse uma frase icônica em resposta: “Traidor é quem apoia corruptos”.

Tancredo foi eleito com Sarney como vice, e o PFL (Partido da Frente Liberal) se tornou um dos partidos mais poderosos e relevantes do país, especialmente após a morte de Neves. A redemocratização foi feito durante o governo Sarney, fazendo com que o PFL fosse um dos responsáveis pelo processo. ACM, inclusive, foi Ministro das Comunicações no período, tornando-se amigo até mesmo de Fidel Castro. O presidente cubano costumava até mesmo visitar o político brasileiro na Bahia.

DEM - Ombrelo
Antônio Carlos Magalhães virou amigo pessoal de Fidel Castro.

Por outro lado, o PDS passou a ter um desempenho cada vez pior nas eleições seguintes. Em 1993 o partido, que ainda tinha Maluf como principal nome, se fundiu ao PDC, criando o PPR.

Enquanto isso, o PFL foi ganhando cada vez mais projeção no cenário nacional, sempre utilizando o número eleitoral 25 e defendendo o liberalismo econômico. Nas eleições presidenciais de 1989, o partido lançou a candidatura de Aureliano Chaves, que viria a desistir, posteriormente, para apoiar Silvio Santos. Com a impugnação da candidatura do apresentador de TV, no entanto, Aureliano Chaves se viu obrigado a disputar a eleição. Ele obteve 600 mil votos e ficou na nona colocação. No segundo turno o PFL apoiou Collor na disputa contra Lula e foi recompensado por isso após a vitória do alagoano do PRN.

Collor nomeou membros do PFL para duas das principais pastas do governo. Carlos Chiarelli foi o ministro da Educação, enquanto Alceni Guerra ficou com o ministério da Saúde. Por apoiar as privatizações propostas por Collor (que iam ao encontro do ideal liberal do partido), o PFL deu um grande suporte ao presidente, mas se afastou conforme novas acusações contra o chefe do executivo iam saindo.

O retorno ao poder ocorre durante o Governo Itamar, quando o PFL volta a ter ministérios e passa a ter Inocêncio Oliveira como Presidente da Câmara. O fortalecimento do partido fez com que o PSDB oferecesse ao PFL um lugar na chapa presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Marcos Maciel foi o escolhido e se tornou vice-presidente do Brasil de 1995 a 2003.

Dessa forma, o PFL continuou atuando como situação, especialmente após eleger Luís Eduardo Magalhães como Presidente da Câmara (1995) e seu pai, Antônio Carlos Magalhães, como Presidente do Senado (1997). Os mandatos dos baianos como presidentes das duas casas foram, respectivamente, até 1997 e 2001. Posteriormente, a Câmara foi assumida por Michel Temer e Aécio Neves, e o Senado por Jader Barbalho. Todos os três tiveram o apoio do PFL.

No entanto, o partido voltou a controlar a câmara pouco tempo depois. Efraim Morais foi presidente do congresso entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003. Antes disso, em março de 2002, o PFL rompe com o governo FHC e, pela primeira vez na história, passa a ser oposição. Como consequência, o partido se absteve da disputa presidencial e não declarou apoio a nenhum dos candidatos. E a estratégia foi boa para os pefelistas nos âmbitos estaduais, pois conseguiram eleger quatro governadores, quatorze senadores e mais de oitenta deputados federais.

Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, o partido se tornou uma oposição ainda mais dura, tendo em vista que o plano de governo petista ia de encontro aos ideais do PFL. A popularidade de Lula no primeiro mandato, contudo, prejudicou a frente liberal nas eleições de 2006, nas quais o PFL elegeu apenas um governador e perdeu vinte cadeiras no congresso. Além disso, o partido foi derrotado na eleição presidencial. José Jorge, membro do PFL, foi o candidato a vice-presidente de Geraldo Alckmin, que não conseguiu impedir a reeleição de Lula.

O fraco desempenho nas urnas e a divulgação de escândalos de corrupção fizeram com que a cúpula do PFL optasse pela renomeação do partido. Em março de 2007, sob a liderança de Rodrigo Maia, o PFL dava lugar ao Democratas, popularmente conhecido como DEM.

 

DEM (Democratas)

Convenção para anúncio da mudança do nome PSL para DEM.

Como podemos perceber, o DEM surge no cenário nacional tendo UDN, ARENA, PDS e PFL em seu DNA político, algo visto com desconfiança por boa parte da população. Apesar da mudança de nome, os conceitos do PFL não foram alterados. O Democratas continua pregando o liberalismo econômico de maneira fervorosa e defende um conservadorismo nos costumes, muito por conta do fator religioso que tem sido muito influente no partido.

Não por caso, em 2010 o então presidente Lula disse que o partido tinha a ditadura no DNA, apesar da mudança de nome. Oficialmente, contudo, o DEM prega a defesa da democracia e dos direitos humanos, além dos pontos econômicos e sociais citados acima.

Até 2011, o DEM governou São Paulo, maior cidade do Brasil, e no mesmo ano enfrentou sua primeira crise desde a implementação do novo nome. Insatisfeito com o excesso de conservadorismo da legenda, o prefeito Gilberto Kassab resolveu sair do Democratas para criar o PSD. Kassab conseguiu levar consigo nomes importantes do partido, como a senadora Kátia Abreu, fazendo com que o DEM perdesse cadeiras relevantes no congresso, além de um governador.

O momento delicado fez com que o DEM cogitasse uma fusão com o PTB, partido de Roberto Jefferson que ficou famoso pelo envolvimento no Mensalão. A ideia foi aprovada oficialmente no Democratas, mas o PTB recusou.

A situação viria a melhorar a partir de 2013. Com a descrença da população na classe política e, principalmente, no PT, o DEM passou a ganhar espaço, especialmente após o impeachment de Dilma Rousseff, apoiado em bloco pelo partido, que teve o senador Ronaldo Caiado como principal porta-voz. Michel Temer assumiu o posto de Presidente da República em 2016 e o DEM voltou à situação, ficando inclusive com o ministério da Educação na figura de Mendonça Filho.

Mesmo estando envolvido com a Operação Lava Jato (o DEM recebeu 18,588,546.08 Reais em doações de empresas envolvidas no esquema de propina) o partido conseguiu sua maior conquista recente também em 2016: Rodrigo Maia foi eleito Presidente da Câmara.

Maia foi um dos grandes responsáveis pela aprovação de algumas das medidas mais radicais de Michel Temer, como a Reforma Trabalhista e a Nova Base Nacional Comum Curricular. Além das privatizações e da abertura do pré-sal para empresas estrangeiras. O liberalismo econômico defendido pelo DEM estava em plena sintonia com Temer e, consequentemente, mais vivo do que nunca.

 

Cada vez mais forte

Membros do MBL, Fernando Holiday, Kim Kataguiri e Arthur do Val agora são parlamentares do DEM.

A insatisfação da população brasileira com o PT se manteve forte, fazendo com que tais mudanças fossem esquecidas, especialmente durante as eleições de 2018, nas quais o DEM apoiou Geraldo Alckmin para presidente (no primeiro turno). No âmbito legislativo, um dos trunfos do partido foi o Movimento Brasil Livre. Algumas das figuras mais icônicas do MBL, que é extremamente forte na internet, se candidatam pelo DEM e foram eleitos de maneira folgada. Em 2016, Fernando Holiday já havia vencido o pleito para vereador em São Paulo pelo DEM, e em 2018 foi a vez de Arthur do Val (Mamãe Falei) e Kim Kataguiri serem eleitos, respectivamente, Deputado Estadual e Deputado Federal, também por São Paulo.

Mas voltemos à disputa da presidência.

Com um discurso inflamado contra a corrupção e a favor da “família”, Jair Bolsonaro foi crescendo e se tornou o grande favorito na disputa presidencial. O DEM, mais do que rapidamente, declarou apoio ao então deputado do PSL no segundo turno e passou a fazer parte da base do governo antes mesmo dele virar governo.

Onyx Lorenzoni, deputado pelo DEM, se tornou o braço direito de Bolsonaro e Paulo Guedes. Após a vitória do candidato da extrema-direita, Onyx foi o escolhido para assumir o ministério da Casa Civil, um dos cargos mais importantes da República.

Ministro da Casa Civil, Onyx é o grande conselheiro de Jair Bolsonaro.

Além de Onyx Lorenzoni, o DEM foi agraciado com outros dois ministérios no governo Bolsonaro (Agricultura e Saúde). Mas as grandes conquistas vieram há dez dias. Rodrigo Maia foi reeleito Presidente da Câmara dos Deputados e Davi Alcolumbre se tornou Presidente do Senado. Ou seja, o DEM passou a ter o controle das duas casas legislativas mais importantes do país e de uma das pastas ministeriais mais relevantes. E isso não é coincidência.

A agenda de Jair Bolsonaro está totalmente alinhada com a do DEM, e a influência de Onyx no governo deixa isso claro. O liberalismo econômico, existente desde sempre no Democratas, deve seguir a linha de Macron na França e de Macri na Argentina e ser o modelo político do Brasil nos próximos quatro anos. Lorenzoni, Maia e Alcolumbre têm papeis importantíssimos para que isso aconteça, pois eles são os grandes responsáveis pelas articulações, apresentações e votações das reformas previstas pelo governo, como a da Previdência.

Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, ambos do DEM, presidem a Câmara e o Senado.

Hoje o país tem Jair Bolsonaro como sua principal figura política, no sentido pessoal. Entretanto, o mesmo não se aplica ao PSL, partido do presidente. Após anos como oposição, o DEM (ou, se preferir, ARENA e PFL) retorna ao poder mais forte do que nunca e com o apoio (ou pelo menos a omissão) da população.

O Brasil já viu este filme antes, e apesar da mudança do título e de alguns personagens, o final pode ser o mesmo. Ou ainda pior.

 

Dados Sobre o DEM

Data de Fundação: 28/03/2007

Número de Filiados: 1,049,813

Presidente: ACM Neto

Governadores: 2

Prefeitos: 267

Senadores: 6

Deputados Federais: 28

Deputados Estaduais: 54

Vereadores: 2907

 

Por: Daniel Furlan